domingo, 19 de novembro de 2017

Festival da Eurovisão 1992

por Paulo Neto

Já passaram seis meses desde que o impensável aconteceu e Portugal finalmente venceu o Festival da Eurovisão. Enquanto os preparativos para a edição do próximo ano em Lisboa seguem a bom ritmo, nada como voltar a recordar uma edição passada do certame, a saber a que teve lugar há 25 anos atrás em 1992.



O 37.º Festival da Eurovisão decorreu a 9 de Maio de 1992. Em virtude da sua vitória no ano transacto, a Suécia recebia o certame pela terceira vez, e depois da capital Estocolmo em 1975 e de Gotemburgo em 1985, cabia agora Malmo acolher o evento no centro de exposições e convenções MalmoMassan. O palco tinha no meio uma espécie de barco viking.


A apresentação esteve a cargo de Lydia Capolicchio e Harald Treutiger. Foi também a segunda edição a ter uma mascote: um pássaro. Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Eládio Clímaco e Ana Zanatti foi a porta-voz dos votos de Portugal.

Além dos vinte e dois países que participaram em 1991, registou-se o regresso da Holanda, ausente no ano anterior, num total de 23 países participantes. No entanto, esta seria a última participação da Jugoslávia (que na altura já estava efectivamente reduzida às repúblicas da Sérvia e do Montenegro) sob esta designação.

Como é habitual, vamos ver as canções por ordem inversa à classificação:

Pave Maijanen (Finlândia)
Christer Bjorkman (Suécia)

E começamos com um país habituado à cauda da tabela, a Finlândia. Depois de ter feito coros para as canções finlandesas de 1982 e 1983, Pave Maijanen tinha agora oportunidade de mostrar o seu valor com "Yamma Yamma", que falava sobre as alegrias de ouvir música na rádio, com a letra mesmo a referir Frank Sinatra e John Lennon. Mas apesar do seu refrão repetitivo e pegadiço, a Finlândia não convenceu os júris europeus, e obteve somente quatro pontos, quedando-se no último lugar.
Já a Suécia não está lá muito habituada ao fundo da tabela, mas nesse ano santos da casa não fizeram milagres e o país anfitrião não foi além do penúltimo lugar com apenas 9 pontos. A balada "I morgon är en annan dag" ("amanhã é outro dia") foi interpretada por Christer Bjorkman, que desde 2002 exerce a função de supervisor do MelodiFestivalen, o equivalente sueco Festival da Canção. 


Marion Welter (Luxemburgo)
Morgane (Bélgica)


O Luxemburgo levou uma canção cantada em luxemburguês, "Sou fräi" ("tão livre") na voz de Marion Welter, acompanhada pelo grupo Kontinent. Recebeu 10 ponto de Malta, ficando-se pelo 21.º lugar.
A Bélgica apostou na jovem Morgane, de apenas 16 anos, para defender as suas cores cantando "Nous on veut des violons" ("nós queremos violinos"). A letra era uma espécie de manifesto contra o conceito de geração rasca, declarando que há muito mais sob o ar de indiferença desta juventude. Porém com 11 pontos, a Bélgica não foi além do 20.º lugar. Segundo a Wikipedia, após vários anos no anonimato durante os quais teve três filhos, Morgane regressou à música em 2009 via rock gótico.

Aylin Vatankos (Turquia)
Merethe Troan (Noruega)

Aylin Vatankos foi a intérprete da canção da Turquia, "Yaz Biti" ("o Verão acabou"), uma balada sobre amores de Verão. Ficou em 19.º lugar com 17 pontos.
"Visjoner" ("visões") foi a canção que representou a Noruega, uma tema bem animada marcado pela muito boa disposição da intérprete Merethe Troan, que deixou mesmo escapar uma gargalhada espontânea a meio da actuação. A Noruega ficaria em 18.º lugar com 23 pontos. Mais tarde, Merethe Troan fez carreira como "voice actress", sendo a voz da Belle noruguesa em "A Bela e O Monstro".

Dina (Portugal)
Wind (Alemanha)

E chegámos a canção de Portugal, que nesse ano ficou em 17.º lugar com 26 pontos (8 pontos de Israel e Alemanha, 5 da Jugoslávia, 2 de Grécia e Finlândia e 1 de Itália). Mas a canção é daquelas que toda a gente conhece, "Amor de Água Fresca", uma autêntica salada de frutas musical servida com letra de Rosa Lobato de Faria e a voz de Dina, que também compôs a música. Quem é que nunca cantou "Peguei, trinquei e meti-te na cesta/ Ris e dás-me a volta à cabeça /Vem cá, tenho sede./Quero o teu amor de água fresca"? (Até a própria J.K. Rowling declarou, após a vitória de Portugal na Eurovisão em Maio passado, que ainda hoje sabe este refrão de cor, que decerto terá aprendido quando a autora da saga "Harry Potter" dava aulas no Porto.) Igualmente inesquecível foi o videoclip desta canção em que Dina surgia como uma espécie de Carmen Miranda por entre cenas de Ricardo Carriço e Sofia Aparício num jogo de sedução.
"Amor de Água Fresca" foi o ponto alto da carreira da cantora nascida em Carregal do Sal sob o nome de Ondina Veloso, que também nos deu canções como "Há Sempre Música Entre Nós" e "Pérola Rosa Verde Limão Marfim". Infelizmente em 2016, Dina anunciou o fim da sua carreira devido a problemas de saúde. 
A Alemanha foi mais um país que apostava forte nesse ano mas que teve resultados aquém do esperado. E não era para menos, pois o grupo Wind já tinha representado o país em 1985 e 1987, tendo ficado em segundo lugar em ambas as ocasiões. No entanto, somente a vocalista Petra Scheeser e o percussionista Sami Kalifa foram os únicos membros de grupo a estar presentes nas três participações. Desta vez, levaram a balada "Traumen sind fur alle da" ("os sonhos são para todos") e tal como as canções alemãs dos dois anos anteriores, também aludia aos ventos de esperança na Alemanha reunificada. Mas ao contrário das outras duas prestações, desta vez os Wind não foram além do 16.º lugar com 27 pontos.

Daisy Auvray (Suíça)

Serafín Zubiri (Espanha)

A canção que representou a Suíça em Malmo não foi a vencedora nacional. A pré-selecção helvética tinha sido ganha pelo tema "Soleil, Soleil" interpretado por Géraldine Olivier. No entanto, foi descoberto que os autores da canção violaram as regras ao submeter a canção a concurso duas vezes: primeiro pela parte francófona onde não foi escolhida, depois pela parte alemã com a versão em alemão que ganhou a final nacional. Como tal, esse tema foi desclassificado e a canção que tinha ficado em segundo lugar "Mister Music Man", interpretada por Daisy Auvray, é que seguiu para a Suécia, obtendo o 15.º lugar com 32 pontos, incluindo um 12 da Islândia.
A Espanha foi o primeiro país a actuar, representada por Serafín Zubiri que assim se tornou o primeiro cantor invisual a participar no Festival da Eurovisão. A sua canção "Todo esto es la musica" obteve 37 pontos, o que lhe valeu o 14.º lugar. (Pessoalmente, acho que merecia um pouco mais). Serafín voltaria à Eurovisão em 2000.

Extra Nena (Jugoslávia)

Kenny Lübcke e Lotte Nilsson (Dinamarca)

Como já referi antes, em 1992, a Jugoslávia estava agora reduzida à Sérvia e ao Montenegro após as proclamações de independência das restantes repúblicas que, à excepção da Macedónia, foram feitas à custa de sangrentos conflitos, sobretudo na Bósnia-Herzegovina, que levaram a um embargo da ONU. Ainda assim, fez-se representar pela cantora folk sérvia Snezana Beric que respondia pelo espectacular nome artístico de Extra Nena, no tema "Ljubim te pesmama" ("eu beijo-te com canções") ficando em 13.º lugar com 44 pontos. Este território só regressaria à Eurovisão em 2004, já sob a designação de Sérvia & Montenegro. 
Volta e meia, a Dinamarca gosta de levar um dueto entre uma voz masculina e uma voz feminina  e foi isso que sucedeu em 1992, com este país a ser representada por Kenny Lübcke e Lotte Nilsson com o tema "Alt dem som ingen ser" ("o que mais ninguém vê"), que ficou em 12.º lugar com 47 pontos. Kenny Lübcke regressaria à Eurovisão como membro do coro em 1999, 2002 e 2005.

Evridiki (Chipre)

Tony Wegas (Áustria)

Chipre trouxe a proposta mais sensual da noite. Evridiki já tinha feito várias vezes nos coros de várias canções cipriotas mas estreava-se este ano como solista na Eurovisão com "Teriazoume" ("somos parecidos"). A actuação foi marcada por duas peripécias: um movimento brusco por parte de Evridiki fez abanar o suporte do microfone e o público, não se apercebendo que a canção tinha uma pausa silenciosa mesmo antes do fim, começou a aplaudir antes de tempo. Chipre ficou em 11.º lugar com 57 pontos.
A minha favorita pessoal do Festival desse ano foi a Áustria, que ficaria em 10.º lugar. "Zuhsammen geh'n" ("caminhar juntos") era uma romântica balada com música de Dieter Bohlen (sim, o dos Modern Talking) e interpretada por Tony Wegas. Obteve 63 pontos, incluindo um 12 da Irlanda. 
Mas existe um grande motivo que fez com que eu nunca tivesse esquecido esta canção. Na altura, ainda era habitual a RTP transmitir os videoclips das canções concorrentes após o Telejornal umas semanas antes do Festival. Pois recordo-me bem que durante esses blocos, de ver o videoclip da canção da Áustria que intercalava planos de Tony Wegas a fazer playback da canção com cenas em que um casal de actores protagonizava cenas de erotismo softcore, algumas das quais dignas das "50 Sombras de Grey". Nada de super vulgar mas ainda assim era sem dúvida das coisas mais puxadas que o meu eu de 12 anos tinha visto até então na televisão. Tony Wegas voltou a representar a Áustria no ano seguinte.  


Humphrey Campbell (Holanda)

Kali (França)

Ausente no ano anterior, a Holanda regressou à Eurovisão e foi este país que encerrou o desfile das canções com "Wijs me de weg" ("mostra-me o caminho"), interpretado por Humphrey Campbell, cantor natural do Suriname. Como tal, o tema continha matizes de sonoridades caribenhas e também de r&b. Campbell interpretou este tema em coreografia com os seus irmãos Carlo e Ben e deu aos Países Baixos o nono lugar com 67 pontos.
Os sons das Caraíbas também estiveram bem presentes na canção da França, representada por Jean-Marc Monnerville, de nome artístico Kali, artista oriundo da ilha de Martinica. Como tal o tema "Monté lá rivié" ("sobe o rio") era interpretado em francês e crioulo franco-caribenho. Ficou no 8.º lugar com 73 pontos.

Heart 2 Heart (Islândia)
Dafna Dekel (Israel)

A Islândia trouxe um dos temas mais animados, "Nei eda já" ("não ou sim") do grupo Heart 2 Heart, que ficou em sétimo lugar com 80 pontos. Curiosamente dois dos elementos do grupo, Sigga Beinteinsdottir e Gretar Orvasson tinham representado este país dois anos antes como o duo Stjornin e tinham obtido o melhor resultado islandês até então, um quarto lugar, pelo que havia esperanças de conseguirem ainda melhor em 1992. Sigga voltaria a representar a Islândia dois anos depois, desta vez a solo. 
Igualmente animada foi a canção que representou Israel, "Ze rak sport" ("é só desporto") que com os seus ritmos latinos, bem que podia passar por uma música espanhola não fosse interpretada na língua hebraica por Dafna Dekel. Israel ficou em sexto lugar com 85 pontos. Dafna viria a apresentar o Festival da Eurovisão de 1999 em Jerusalém. 

Cleopatra (Grécia)
Mia Martini (Itália)

Cleopatra Pantazi foi a representante da Grécia, que nesse ano conseguiu igualar o melhor resultado desse país até à altura, um quinto lugar com 94 pontos. O tema "Olou tu kosmo i elpida" ("a esperança de todo o mundo") reflectia sobre a incerteza do mundo moderno e era inspirada pelo facto de nesse ano decorrer no Brasil a primeira grande cimeira internacional sobre as questões ecológicas que o mundo atravessava. 
Mia Martini (nome verdadeiro Domenica Berté) já tinha representado a Itália quinze anos antes com o tema disco-pop "Libera". Desta feita, ela trazia uma canção bem diferente, "Rapsodia", cuja letra falava sobre o reencontro de dois velhos amantes. Recordo-me que o Paulo de 1992 não gostou lá muito da interpretação de Mia Martini (parecia-me que lhe estava a doer qualquer coisa), mas o Paulo de 2017 já tem maturidade suficiente para apreciar a imensa qualidade desta canção e o sentimento impresso na voz da intérprete. A Itália ficou em quarto lugar com 111 pontos. Infelizmente, Mia Martini faleceu três anos mais tarde. 

Mary Spiteri (Malta)

Regressado a Eurovisão no ano anterior após dezasseis anos de ausência, o pequeno arquipélago de Malta obteve em 1992 o seu melhor resultado até então, ao conseguir o terceiro lugar com 123 pontos (incluindo 12 de Portugal). O tema "Little Child" foi defendido por Mary Spiteri. Durante um segmento do Festival da Eurovisão de 2014, esta canção foi referida como sendo aquela com a nota mais longa aguentada por um cantor no evento (13 segundos).

Michael Ball (Reino Unido)
   
O Reino Unido ficou em segundo lugar (139 pontos) com o tema "One Step Out Of Time", interpretado por Michael Ball, naquele que é o mais notória incursão na música pop desta grande vedeta dos musicais do West End londrino. O Reino Unido ficava assim com a medalha de prata pela 12.ª vez. 

Linda Martin (Irlanda)

Mas a vitória acabou por ir para a Irlanda, que assim vencia o Festival pela quarta vez. Linda Martin esteve muito perto da vitória oito anos quando obteve o segundo lugar na edição de 1984 com "Terminal 3". Mas à segunda, o triunfo (com 155 pontos) não lhe escapou, interpretando a balada "Why me", que foi escrita por nada menos que Johnny Logan, vencedor do Festival da Eurovisão por duas vezes em 1980 e 1987, provando que não há duas sem três.  


Festival da Eurovisão 1992 (comentários da BBC):

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A Morte do Super-Homem (1993)


17 de Novembro de 1993. Uma das raras datas em História Ficcional que transborda para o Mundo real. Neste caso até teve honras de figurar em noticiários e imprensa não especializada na 9ª arte: "A Morte do Super-Homem". Nesse dia a editora DC Comics lançou a revista "Superman" Nº 75, o culminar do arco iniciado em Dezembro de 1992 na edição "Superman: The Man Of Steel" Nº 18, que apresentou aos leitores a criatura que iria ser o carrasco do Último Filho de Krypton: o monstruoso "Doomsday", baptizado em "português" como "Apocalypse".
Além das revistas do Homem de Aço, as consequências do seu desaparecimento refletiram-se em diversos outros títulos, e até contribuiram para tornar um dos heróis fundadores da Liga da Justiça num temível vilão.
A sinopse é simples: um misterioso ser escapa de um subterrâneo e começa a espalhar destruição e mortes no caminho para Metropolis. Os heróis da Liga da Justiça são rapida e brutalmente derrotados e só o Super-Homem consegue fazer frente á criatura que está cada vez mais forte.


Num golpe final, junto ao Planeta Diário e na frente de Lois Lane, Jimmy Olsen o Homem de Aço derrota Doomday mas não resiste aos ferimentos e perde a vida.


Conta-se que originalmente o destaque seria o casamento de Lois Lane e Clark Kent, mas que a história foi adiada para sair na mesma época que o casal iria atar o nó na série "Lois & Clark". Na lista de criadores desde evento inédito até á epoca encontramos os nomes Mike Carlin, Dan Jurgens, Roger Stern, Louise Simonson, Jerry Ordway e Karl Kesel.
Como vemos nesta reportagem da época, a morte do Super-Homem não foi uma surpresa para quem acompanhava as suas aventuras na banda desenhada.

Curiosamente, a morte do Super-homem é comparada á morte do J.R. em "Dallas", que por influência da reacção negativa do público foi "ressuscitado". 
Outros segmento de noticias, que inclui declarações da "noiva" do herói caído:


Tenho a memória de também ter visto a notícia num dos telejornais da RTP ou SIC, apesar de já ter lido antes num jornal ou revista. Imagino que para os leitores mais novos ou mais envolvidos a morte deste idolo terá sido um trauma como anos antes foram as mortes de Chanquete e do David O Gnomo...Podia ser lido como uma lição de vida, que nada dura para sempre, nem o poderoso Super-Homem, o primeiro super-herói e uma das figuras mais reconhecidas mundialmente. Podia fazer refletir sobre a mortalidade do ser humano. Pelos menos durante uns meses, até o Super regressar com uma guedelha e um fato preto, e confirmar que na banda desenhada nínguém fica morto muito tempo...tirando o Tio Ben, Gwen Stacy e o Capitão Marvel.
Claro que depois da "morte", houve o funeral, a viagem pelo outro-mundo, o aparecimento de 4 super-homens e obviamente o regresso do verdadeiro.
Vamos ver as capas das edições portuguesas:
"A Morte do Super-Homem".
 "Funeral para um amigo"
 "Super-Homem Além da Morte"
 "O Regresso do Super-Homem"

Devido ao habitual atraso entre as revistas publicadas nos Estados Unidos e as edições brasileiras da Editora Abril e o atraso entre a sua edição em Portugal, só em 1995 tivemos a possibilidade de ler a história em português deste lado do Atlântico, que foi agrupada em vários volumes. No final dos anos 90 até comprei a novelização, um grande calhamaço que encontrei no El Corte Ingles de Madrid, em espanhol, obviamente.
Todas as imagens deste artigo foram retiradas das revistas da minha colecção pessoal. O estado delas até não é grande coisa, devido á grande quantidade de vezes que reli este verdadeiro evento da banda desenhada.


Este arco foi adaptado no filme animado "Superman: Doomsday" (2007) e em imagem real nos filmes "Batman V Superman" (2016) e "Liga da Justiça" (2017).
Recomendo um artigo de 2014 com uma entrevista ao escritor e desenhador de "Superman nº 75": Dan Jurgens: "Throwback Thursdays: Dan Jurgens Remembers The Death Of Superman | ComicBook.Com", um nome importante desta e das fases seguintes da história do Super-Homem. E também aconselho este artigo de 2016: "Superman Died 24 Years Ago Today".
Infelizmente, quase 11 anos depois, o verdadeiro Super-Homem morreu na vida real, com o falecimento do actor Christopher Reeve que deu vida ao Homem de Aço em quatro filmes.

sábado, 11 de novembro de 2017

Sugus (1931- )

por Paulo Neto

Nem todas as nossas memórias de infância, sobretudo a nível alimentar, desapareceram. Muitas das guloseimas que tanto nos adoçaram a vida continuam à venda: chocolates, gelados, pastilhas, caramelos, etc. Só que tal como nós, e como tudo na vida, também essas coisas evoluíram com os tempos.



Por exemplo, há dias e ao fim de vários anos, comprei uma embalagem de Sugus. O sabor desses famosos caramelos quadrados continuava assaz delicioso mas havia diferenças em relação aos meus tempos de petiz alegre consumidor de Sugus e isso levou-me a diversas reflexões:



Reflexão 1: A começar pela dita embalagem que trazia Sugus de vários sabores. O que eu daria em petiz para uma embalagem rectangular contendo vários sabores de Sugus pois nesse tempo, eu e os demais garotos estavam limitados às embalagens de Sugus que continham dez caramelos de um único sabor (embalagens essas que continuam a existir actualmente). Havia de facto embalagens de Sugus com vários sabores mas vinham numa embalagem tipo saco de plástico e só me recordo de os meus pais comprarem-me essa embalagem maiorzinha muito esporadicamente e devido a uma ocasião especial, como um aniversário meu ou do meu irmão. 


Reflexão 2: Porém a principal diferença que notei na embalagem actual de Sugus face às da antigamente é que os Sugus actuais já não têm a envolvência extra de um papel branco, bastando desembrulhar o típico papel de colorido. Quando é que os Sugus terão deixado de serem envolvidos no famoso papel branco? E por que razão? Terá sido um motivo de cariz ecológico, numa altura em que a redução e a reciclagem do papel passaram a estar na ordem do dia? 
Sim, porque o papel extra branco que envolvia os Sugus era em si mesmo uma instituição, recordando ao petiz que o seu consumo não devia ser feito de forma leviana. Com um pouco de sorte, calhava-nos uma embalagem onde o papel branco era facilmente removido e o caramelo era prontamente degustado. Com bastante frequência porém, a remoção do papel branco requeria mais atenção, a fim de evitar que restos do papel branco continuassem colados ao caramelo, sobretudo quando este estava todo melado e peganhento do calor. E quem nunca, no meio da frustração, ingeriu um Sugu(?) com um restinho do papel branco que atire a primeira pedra.


Reflexão 3: O singular de Sugus é mesmo Sugu (com U no fim, é bom de ver) ou será daquelas palavras cujo singular e plural são os mesmos, tal como por exemplo pires? Recordo-me de dizer "Dá-me um Sugu" com a sensação que estava a incorrer em algum incumprimento gramatical.


Reflexão 4: No episódio da Caderneta de Cromos consagrado aos Sugus, o Nuno Markl afirmava que o sabor mais popular dos ditos eram os de hortelã-pimenta. Ora sucede que eu nunca me lembro de em criança ter visto Sugus de tal sabor, pelo que a ter existido o sabor de hortelã-pimenta, terá certamente sido esporadicamente algures nos anos 70. 
Nos meus tempos de criança dos anos 80, havia somente seis sabores de Sugus: morango (invólucro vermelho), laranja (cor-de-laranja), limão (azul), banana (amarelo), pêssego (cor-de-laranja claro) e ananás (verde). Por vezes, certas embalagens tinham invólucros brancos com as letras do logótipo da cor correspondente ao sabor. 


O meu ranking de sabores de Sugus era o seguinte: 1.º Limão, 2.º Morango, 3.º Banana, 4.º Laranja, 5.º Pêssego, 6.º Ananás. Os Sugus de limão eram os meus preferidos mas infelizmente eram os que eram mais raros de se encontrar à vendas nas lojas e cafés, pelo que na maioria das vezes, tinha de optar pelo second best sabor a morango. Já os de ananás (e o Markl também referiu isto) eram os menos favoritos para mim e para quase toda a gente. Numa festa em que houvesse vários sabores de Sugus à disposição, era certo e sabido que os Sugus de ananás seriam os últimos a serem comidos. E ao contrário dos de limão, as embalagens de Sugus de ananás eram das mais recorrentes nas lojas e cafés.

Só foi já em adulto que eu passei a ver embalagens de Sugus com sabor a menta, bem como outros novos sabores que eventualmente sugiram  como melão, framboesa ou cereja.



Reflexão 5: Quando foram criados os Sugus? Uma pesquisa pela internet revelou que foram criados pela companhia chocolateira suíça Suchard (sim, a do Suchard Express) em 1931, pertencendo desde 2005 ao grupo Wrigley. O nome vem da palavra "suge" que nas línguas escandinavas quer dizer "chupar" (ou, melhor dizendo, "sugar"). Terão chegado a Portugal em finais dos anos 60 e são actualmente distribuídos no nosso país pelo grupo Mars Portugal. Continuam também a ser comercializados com sucesso em vários países da Europa, América Latina e Ásia. Desde 2008 que os Sugus são considerado património culinário suíço. 

Na Enciclopédia de Cromos, o David Martins já recordou aqui alguns cartazes publicitários, como este de 1981:

Ou este de 1987, promovendo um passatempo onde se podia ganhar um robot que falava!


Quanto a anúncios de televisão, recordo-me sobretudo deste de 1990, envolvendo uma simpática menina de óculos, uma árvore muito especial...e a lei da gravidade.

 




    

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Learn-To-Drive Speedracer


Depois de anos de pesquisa online julguei ter conseguido identificar um dos meus mais queridos brinquedos de infância, um "simulador de condução": Tec Toy Driver Junior. Alguns anos já tinha encontrado fotos do Turbo da Tomy, mas não era exactamente como o desta  marca, e vi por acaso fotos do Turbo da Tec Toy e ao ver o anúncio brasileiro [vídeo]  foi revelada a versão para os mais pequenos: Video Driver Junior. Parecidissimo ao que tive, comecei o rascunho do artigo, ainda no inicio da Enciclopédia de Cromos, mas guardei-o até encontrar imagens do mesmo modelo com que brinquei tantos anos. E agora, também por acaso, consegui encontrar: "Learn To Drive Dashboard Speed Racer".

Video de brinquedo a funcionar. Já não me recordava que era tão barulhento!



É muito semelhante ao modelo vendido pela Tec Toy, tirando alguns pormenores como os faróis dianteiro e os autocolantes. Na imagem seguinte, á esquerda o Video Driver Junior e á esquerda o Learn-to-Drive Speedracer.

Muitas horas passei agarrado a este brinquedo a imaginar que conduzia o K.I.T.T. ou uma nave espacial,e  adorava puxar a alavanca até ao final dar "o turbo" ou accionar a hyperdrive rumos a brincadeiras noutra galáxia! Gostava de saber de outros leitores que também tenham tido este belo brinquedo!

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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Carrie (1976)






Um dos meus filmes de terror favoritos: "Carrie". Estreado em 3 de Novembro de 1976, foi a primeira e é  a mais famosa das adaptações de um romance de Stephen King, neste caso, o homónimo "Carrie" de 1974.



Carrie é uma rapariga tímida e solitária, vitima de bulling na escola às mãos de colegas cruéis e dominada pela sua mãe insana e fanática religiosa. Entretanto, Carrie descobre que quando passa por situações emocionais, activa o seu poder de telecinese (mover objectos com a mente). Apesar de constantemente maltratada na escola, e contra a vontade da mãe, Carrie aceita ir ao Baile de Finalistas com um jovem bonito e popular, sem saber que será vitima de uma armadilha. E toda a escola está prestes a ter uma surpresa desagradável....






Não me recordo se o vi pela primeira vez na televisão ou em VHS, mas foi um filme que me marcou imediatamente. A empatia com a frágil e estranha Carrie é rápida, que além de ser hostilizada na escola pela sua timidez e aparência - um tema universal - e também sofre abusos às mãos de uma progenitora obcecada com o pecado. No inicio do filme quando Carrie tem o período pela primeira vez julga que está a morrer, graças à sua (des)educação sexual, imposta pela mãe. Ao mesmo tempo, essa nova (e tardia) fase da vida da jovem marca o despertar dos seus poderes (tal como os X-men e os outros mutantes do universo Marvel, uma clara referência ás mudanças dos jovens ao entrarem na puberdade) e uma hipótese de mudar o seu status quo no ambiente escolar, materializada na forma do baile de finalistas, um ritual de passagem à idade adulta. Mas neste filme, a  rejeição dos pares será retaliada com violência e morte, um paralelo com situações que vimos mais tarde na vida real, como por exemplo no tiroteio de Columbine. Mas, metáforas à parte, é um grande filme, bem realizado por Brian De Palma ("Missão Impossível", "Testemunha de um Crime", "Vestida para Matar"), e além das brutais cenas em que Carrie usa os seus poderes, destaco ainda o recurso ao split screen, uma sugestiva sequência de créditos em slow-motion pelo balneário feminino (um plano sequência, que se tornou imagem de marca do realizador), e a bela banda sonora composta por Pino Donaggio. Nota para o carismático elenco, de que se sobressaem Sissy Spacek (como a sofrida protagonista) e Piper Laurie, a alucinada mãe de Carrie.

Carrie, estreou em Portugal em 1981, no Fantasporto. Em 1999, uma sequela "The Rage: Carrie 2" foi um fracasso de crítica e bilheteira. Eu fui dos que vi em DVD... meu rico dinheirinho. Três anos depois foi feito um remake na forma de um telefilme, "Carrie", que supostamente seria um episódio piloto para uma série, que nunca arrancou, devido às baixas audiências. E em 2013a história foi novamente recontada em...adivinharam..."Carrie" (2013). Quando escrevo estas linhas ainda não vi, mas ouvi dizer que tem certas passagens mais fiéis ao livro, que acredito terem sido cortadas por falta de orçamento para o nível de destruição descrito. E acreditem, ou não, um musical até foi levado á cena na Broadway nos anos 80: "Carrie". 



Um texto sobre o filme, na altura que esteve nas salas de cinema:
"Diário de Lisboa" [30-07-1977]

E quando passou na RTP-1, em 1989, na rubrica "Cinema da Meia Noite":
"Diário de Lisboa" [24-02-1989]

Texto original: "Carrie" [1976] no Cine31.

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