segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Space Jam (1996)

por Paulo Neto

Michael Jordan está para o basquetebol como Pelé para o futebol. Mesmo havendo um sem-fim de ilustres nomes que marcaram a história de ambos os desportos, quando acontece fazer o sempre ingrato exercício de escolher apenas um nome como o maior da respectiva modalidade, os nomes destes dois senhores costumam gerar um relativo consenso. Eu já não sou do tempo em que o senhor Edson Arantes do Nascimento maravilhou o mundo com a bola nos pés, mas felizmente sou do tempo em que o senhor Michael Jeffrey Jordan encantava tudo e todos com uma bola nas mãos.



Como a maioria das pessoas cá em Portugal, eu descobri todo o enorme talento de Michael Jordan durante o famoso mítico magazine "A Magia da NBA" que fazia parte da programação desportiva da RTP 2 nas tardes de sábado do início dos anos 90. Mesmo num período áureo da NBA (onde também pontificavam nomes como Magic Johnson, Larry Bird, Shaquille O'Neal, Charles Barkley, Scottie Pippen, Karl Malone e Pat Ewing), os pontos altos eram sem dúvida os jogos dos Chicago Bulls, com Michael Jordan frequentemente a encestar em altos voos com a camisola número 23. A sua popularidade era tal que até aqueles que não sabiam nada da NBA sabiam quem era Michael Jordan.



Em 1996, a popularidade de Jordan era tal que se justificou uma incursão no cinema, num projecto que o juntou ao universo do Looney Toons: o filme "Space Jam", realizado por Joe Pytka.
A história remonta a um acontecimento pessoal de Michael Jordan quando em 1993 chocou o mundo ao anunciar a sua retirada do basquetebol para se dedicar ao basebol, para seguir as pisadas do seu pai, praticante desse desporto. Mas cedo se verificou que de taco na mão, Jordan estava muito longe do talento que tinha como basquetebolista e em 1995, regressou à NBA e aos Chicago Bulls.



Num planeta distante, o parque de diversões Moron Mountain, gerido pelo terrível Swackhammer (voz de Danny DeVitto), está em maus lençóis financeiros e por isso, ele ordena aos seus cinco pequenos esbirros, os Nerdlucks - Pound, Bang, Bupkus, Blank e Nawt - que capturem os Looney Toons para serem as novas escravos atracções de Moron Mountain.



Apesar das suas pequenas dimensões, os Nerdlucks conseguem subjugar os Looney Toons graças às suas armas laser. No entanto, Bugs Bunny convence-os a darem uma oportunidade de eles se defenderem. Pensando que facilmente ganharão às diminutas criaturas, Bugs Bunny e os outros desafiam-no para um jogo de basquetebol.
Mas as coisas complicam-se quando os Nerdlucks roubam os talentos dos jogadores da NBA - Charles Barkley, Pat Ewing, Larry Johnson, Shawn Bradley e Muggsy Bogues - transformando nos Monstars, cinco terríveis monstros basquetebolistas.


Aflitos, os Looney Toons trazem Michael Jordan - que deixara o basquetebol e se encontra numa medíocre carreira no basebol - para o seu universo através de um buraco num campo de golfe onde este jogava com Larry Bird e o actor Bill Murray, para os ajudar a ganhar o jogo. Uma atlética coelhinha basqutebolista de nome Lola Bunny também surge para ajudar e desde logo deixa Bugs Bunny caidinho. Stan Podolak (Wayne Knight) o publicista de Jordan também vai parar ao universo Looney Toons para ajudar, apesar da sua falta de destreza.




No final, após muitas voltas e reviravoltas (e uma inesperada ajuda de última hora de Bill Murray), os Looney Toons vencem o jogo, os Monstars revoltam-se contra a opressão de Swackhammer e devolvem os seus talentos aos jogadores de quem os tinham roubado e Michael Jordan regressa ao basquetebol. (De referir ainda a actriz Theresa Randle no papel de Juanita, a então esposa de Michael Jordan e cameos dos actores Dan Castellanetta e Patricia Heaton.)

Apesar de algumas críticas, nomeadamente por parte de Chuck Jones, um dos maiores nomes ligados aos Looney Toons, "Space Jam" foi um sucesso de bilheteira, tornando-se um dos filmes de temática desportiva mais rentáveis de sempre, e sendo creditado por apresentar os Looney Toons a uma nova geração. Em Portugal, o lançamento do filme em vídeo teve a particularidade de ser o primeiro filme de sempre a conter a versão original e a versão dobrada em português na mesma cassete VHS (cá em casa houve uma cassete dessas). A dobragem portuguesa contou com nomes experientes nessa área como Paulo Oom, José Raposo, Carlos Freixo, André Maia, António Marques, Paulo B., Paula Fonseca e Helena Montez.

A banda sonora de "Space Jam" foi também um sucesso. Entre as músicas mais conhecidas da banda sonora estão "For You I Will" de Monica, "Fly Like An Eagle" de Seal, "Space Jam" dos Quad City DJ's e "Hit 'Em High (The Monstars Anthem)" num colaboração que juntou estrelas de rap B-Real, Busta Rhymes, Coolio, LL Cool J e Method Man. Porém o grande hit de "Space Jam" foi sem dúvida "I Believe I Can Fly", a esmagadora balada gospel de R. Kelly. O disco da banda sonora contava ainda com nomes como D'Angelo, Salt N Pepa, Barry White, Spin Doctors e Robin S.

Um segundo filme de "Space Jam" com Lebron James está previsto para 2017.

O David Martins chamou-me a atenção para este programa do "Templo dos Jogos" com uma crítica ao jogo do Space Jam para a Playstation

Trailer:


"I Believe I Can Fly" R. Kelly





sábado, 3 de dezembro de 2016

Sem Limites


Recentemente, enquanto escutava rádio (a M80), começou a tocar uma faixa que logo nos primeiros acordes me fez recordar um programa de TV dos anos cromos. Descobri o nome da música, "She Sells Sanctuary" dos britânicos The Cult, e fui pesquisar por ligações com o programa, que estava convencido ser o "Portugal Radical". Afinal, graças aos comentários desse programa da SIC, fui direccionado para o programa correcto: "Sem Limites", da RTP-1, na época Canal-1, aos Domingos de manhã. O concorrente na SIC, o "Portugal Radical", ocupava um horário semelhante na grelha, mas aos Sábados.
Cá está o genérico, com a música que não ouvia desde essa altura, até calhar a tocar na rádio:

Sou um zero à esquerda em desportos tradicionais, quanto mais estes radicais que explodiram nos anos 90. O mais perto que consegui chegar a ser radical foi colocar um pé em cima de um skate de um primo meu, e retirá-lo a tempo de evitar quedas desagradáveis. E falando em quedas, uma vez tentei fazer um cavalinho com a minha BMX vermelha. Não acabou bem... Mas voltando ao tópico, apesar de me recordar do tema de abertura, pouco mais ficou. Talvez tenha assistido alguns episódios, mas não era assunto do meu interesse e portanto pouca atenção lhe dediquei... Mas imagino que fosse o Santo Graal da malta que era ou sonhava ser radical. Ei, acho que tive um dossier com um desenho de um puto de skate! Radical enough?

O site oficial da RTP inclui uma sinopse sobre o programa:
"Um programa muito radical...

Produzido no início dos anos 90 pela RTP - Porto, o programa "Sem Limites" é dedicado aos chamados desportos radicais.
Apresentado por Clara Sousa, Duarte Miguel e Pedro Mendonça e realizado por Carlos Silva, o programa pretende ser muito jovem, muito fresco, muito radical.
Modalidades como skate, surf, body board, windsurf e snowboard são presença constante nesta série.
Para além de apresentar provas nacionais nestas modalidades, o "Sem Limites" mostra também provas internacionais, bem assim como reportagens sobre técnicas diversas, como por exemplo a feitura de uma prancha de surf".
E directo dos arquivos do Canal Enciclopédia TV, um anúncio ao programa:

"Jovem. Irreverente. Frenético. Sem Limites. Domingo, ao fim da manhã, agarra o Canal 1 ! Sem Limites." dizia a voz off, apropriadamente ao som do hit de 1993 "No Limit" (Sem Limite) dos 2 Unlimited.

Um artigo do MoveNotícias, refere que o jornalista Miguel Torrão se estreou na TV como pivot do "Sem Limites", em finais dos anos 90.

E falando em finais dos 90, do canal de Youtube do skysurfer José Veras, vídeos de 1997 e 1998, já na RTP-2:






E com um logotipo e música diferentes, um genérico com animação de Pat (o ilustrador Álvaro Patrício, cujo mítico trabalho nos separadores e genéricos da RTP já fora abordado pelo Paulo Neto no artigo "Genéricos de Álvaro Patrício (Pat)"):


Até ao momento não consegui confirmar a data de estreia e encerramento, mas é certo que esteve no ar entre 1994 e 1998, pelo menos.

Excerto da programação de 28 de Janeiro de 1996, "Sem Limites" depois do espaço "Infantil/Juvenil":


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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Pisca-Pisca (Tudo Na Maior) (1989)


por Paulo Neto

A viragem dos anos 80 para os anos 90 foi particularmente fértil em termos de ficção nacional exibida pela RTP: entre 1989 e 1991, vimos séries tão variadas como "Alentejo Sem Lei", "Claxon", "Chuva De Maio", "Caixa Alta", "Nem O Pai Morre...", "A Tribo Dos Penas Brancas" e a primeira série de "Os Melhores Anos", só para mencionar aquelas de que já falámos aqui.



Outra série de que me recordo particularmente dessa altura é "Pisca-Pisca" (com o subtítulo "Tudo Na Maior"), exibida entre Setembro e Dezembro de 1989, aos sábados à noite. Tratava-se de uma curiosa mistura de sitcom com programa de variedades. O elenco fixo era composto por oito actores que vinham da telenovela "Passerelle": Armando Cortez, Luísa Barbosa, Florbela Queiróz, Júlio César, Rosa do Canto, Natalina José, Fernando Mendes e Paula Cruz. Os textos eram de Rosa Lobato Faria e Armando Cortez, a direcção de produção de Thilo Krassman, a direcção musical de Pedro Osório e a realização de Nuno Teixeira.

O ponto de partida para o programa eram as aventuras e desventuras da família Cabrita, composta por oito pessoas que partilham um apartamento T1 em Lisboa. Embora a família tenha dois negócios - um salão de cabeleireiro e um misto de central de táxis e oficina de automóveis - as dificuldades financeiras são sempre muitas, por isso muitas vezes recorrem à imaginação para viver situações ora bizarras ora divertidas para escaparem à frugalidade em que vivem.

Cabrita (Armando Cortez)

Berta (Luísa Barbosa)
Belarmina (Natalina José)
João (Florbela Queiróz)
Miló (Rosa do Canto)
Orlando (Júlio César)
Juvenal (Fernando Mendes)
Alicinha (Paula Cruz)

Cabrita (Armando Cortez) é o patriarca, desempregado profissional, que vai ditando as suas sentenças enquanto a sua esposa Berta divide-se entre a cozinha e os seus biscates como vidente. Os dois têm três filhas: a estóica Belarmina (Natalina José), taxista e mãe solteira que já viu todo o tipo de clientes a passar pelo seu táxi (como por exemplo, o flautista de Hamelin a caminho do Largo do Rato!); a ingénua João (Florbela Queiróz), mecânica cuja aparência de maria-rapaz, esconde uma alma romântica e sonhadora, sobretudo quando se recorda do seu amado Sebastião, desaparecido numa manhã de nevoeiro; e a espevitada Miló (Rosa do Canto), a intelectual da família (isto é, a única que fez o ciclo preparatório) que gere as contas da central de táxis e que sonha em ser fadista.
Na casa vivem ainda Orlando (Júlio César), um primo afastado, Alicinha (Paula Cruz), filha de Belarmina, e Juvenal (Fernando Mendes), que ficou a viver com os Cabrita desde que a sua mãe o deixou lá em casa em bebé e esqueceu-se de o vir buscar.
Orlando ficou a viver com os Cabrita quando regressou a Portugal, depois de (segundo ele) ter combatido em África e andar emigrado no Brasil. Para que as clientes do seu salão não se intimidem com a sua virilidade, durante o serviço assume o alter-ego Landô com tiques efeminados e sotaque brasileiro. E nas horas vagas, vai namoriscando a prima Miló. Também Juvenal e Alicinha vão namorando entre as horas no salão e as tarefas em casa.


Falta ainda falar nos dois animais de estimação da família: o leitão Rosado, que vive alegremente na banheira, e o peixinho Peixoto, que no início de cada programa fazia o resumo do episódio anterior do seu ponto de vista e cujo único tormento é ter de passar para um copo quando Berta decide usar o seu aquário como bola de cristal.

Cada episódio tinha um tema (por exemplo: o circo, as histórias infantis, o Brasil ou os santos populares) a desencadear todo o tipo de situações quer da acção propriamente dita, quer das sequências imaginárias. Pelo meio havia vários números musicais e de bailado e actuações de artistas convidados.

Por exemplo:


- A cada episódio, o elenco reunia-se num cenário com roupas alusivas ao tema do episódio cantando duas variações do tema principal do programa que terminava sempre com a quadra: "Mas se tirarmos um ou outro pormenor, está tudo na maior, tudo na maior."
- Num episódio onde se recuou ao tempo dos gangsters dos anos 20, Florbela Queirós, Rosa do Canto e Natalina José formavam um grupo de irmãs cantoras que entoavam: "Fazemos marmelada, uh uh uh, muita marmelada, uh uh uh." No mesmo episódio, Natalina José e Luísa Barbosa encarnaram duas gangsters muito assutadoras que cantavam: "Somos maus, somos maus, a função é espalhar o caos!"
- Mas a canção de "Pisca-Pisca" que eu nunca esqueci foi a que encerrou o segundo episódio, o "Rock da Conjuntura", com todo o elenco vestido como punks e Júlio César a cantar: "A conjuntura, a conjuntura, a conjuntura tanto bate até que fura!"

Entre os convidados musicais do programa estiveram Lara Li, António Calvário, Rui Veloso, Eugénia Melo e Castro, Teresa Maiuko, Raúl Indwipo, Carlos Mendes, Marco Paulo, Dora, Ministars, Cândida Branca Flor e Paco Bandeira.

Apesar da história ser por vezes demasiado confusa e "nonsense" e de, segundo o site "Brinca, Brincando", os textos terem merecido críticas por parte de alguns actores do elenco, como Florbela Queiróz e Fernando Mendes, "Pisca-Pisca" primava pela qualidade da realização e da direcção artística. O programa foi reexibido pela RTP em 1996 e já passou várias vezes na RTP Memória.

Apesar disso, existe muito pouco material do programa disponível na internet, como por exemplo o original e psicadélico genérico de abertura. No YouTube, apenas encontrei este excerto do episódio de Natal, onde os Cabrita vêem-se em palpos de aranha com tantas rabanadas que lhes são oferecidas, com o Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras a cantar o clássico "Olhei Para O Céu". De referir que apesar deste episódio natalício (transmitido em Novembro), na véspera de Natal de 1989 a RTP exibiu um especial de Natal com o melhor das actuações musicais do programa.  


sábado, 26 de novembro de 2016

Soutien Allya - Triumph (1985)



Anúncio ao soutien "Allya" - da Triumph International - com o subtítulo "Mulher de sonho" (talvez uma referência ao filme "10 - Uma Mulher de Sonho", com Bo Derek? Apesar de esta última ser mais conhecida precisamente pela ausência de soutiens....) e o carimbo "Show Moda 85". A acompanhar uma foto de uma modelo anónima que exibe os seios devidamente aconchegados num soutien e ornamentada por pérolas e um véu de renda.
"Allya. Sedução da forma recriada, conforto e leveza que envolvem, liberdade descoberta momento a momento, na suavidade do toque, no sonho de ser mulher!"

Publicidade retirada da revista Maria, de Abril de 1985 (por confirmar). 
Imagem Digitalizada e Editada por Enciclopédia de Cromos.


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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Blocos Publicitários SIC (Novembro 1995)

por Paulo Neto

Aqui na Enciclopédia de Cromos, adoramos analisar blocos publicitários dos anos 80 e 90, graças aos vídeos dos mesmos disponibilizados no YouTube. É sobretudo interessante analisar os que são exibidos durante a quadra natalícia, habitualmente recheados de todo o tipo de potenciais presentes que miúdos e graúdos poderiam querer receber no Natal desse ano.
Neste artigo, analisaremos três blocos publicitários da SIC de 27 de Novembro de 1995, disponibilizados no YouTube, como não podia deixar de ser, pelo canal Lusitania TV, sem dúvida o maior especialista em desenterrar este tipo de artefactos audiovisuais. Como esse dia era uma segunda-feira, estes blocos foram exibidos durante os intervalos do espaço de cinema da segundas à noite na SIC, "Noite De Estreia", que nesse dia exibiu o filme "Royce" com James Belushi.
Embora embora só haja uma referência explícita ao Natal, pois ainda estávamos em Novembro, estes blocos já continham anúncios a vários produtos tipicamente vendidos como presentes de Natal, como brinquedos, perfumes, whiskys, relógios e discos. Ao mesmo, tempo vamos redescobrindo alguns programa exibidos na SIC na altura, dos mais lembrados como "Não Se Esqueça Da Escova De Dentes" a outros mais esquecidos.



0:00 Luís Nobre Guedes, uma das figuras mais notórias do CDS e então deputado do Parlamento Europeu, era o convidado da semana do programa "Crossfire", espaço de informação onde a cada semana uma figura da política nacional era entrevistada por Margarida Marante e Miguel Sousa Tavares. Nobre Guedes seria Ministro do Ambiente durante o governo de Durão Barroso.
0:28 "Crossfire" era patrocinado pelo whisky Chivas Regal. (E eis que surge a única referência natalícia com uma iluminada árvore de Natal).
0:32 Mesmo se os anos 90 eram tempos de prosperidade em Portugal, uma parte significativa da população nacional ainda vivia em extremas dificuldade. É o caso dos moradores de um pátio que vivem em casas sem água canalizada, numa situação que se arrastava há vários anos, uma situação a ser denunciada no programa "Praça Pública".
1:21 Um televisor Grundig Megatron 100mhz estava então na vanguarda da tecnologia. Mas duvido que, ao contrário do que se mostra no anúncio, seria possível que as coisas saíssem foram do ecrã, nomeadamente a bocarra de um crocodilo.
1:40 Imagens de um alegre jantar em família para ilustrar a qualidade da Carne Alentejana.
1:50 Um divertido anúncio aos telemóveis Nokia (do tempo em que ainda eram algo volumosos) onde um frade vê desvanecer a sua auréola de santidade diante da visão de uma bela mulher de branco.
2:10 Uma multiplicação de ecrãs ilustra este anúncio do whisky Cutty Sark. Não deixa de ser curioso a referência às alternativas audiovisuais de então (4 canais, parabólica, TV por cabo, clube de vídeo). Já agora, sabiam que o veleiro Cutty Sark, hoje um ex-libris da zona de Greenwich em Londres, pertenceu a uma empresa portuguesa entre 1895 e 1922? Durante esse período teve o nome de "Ferreira" e após uma recuperação após estragos num acidente de marítimo em 1916 de "Maria do Amparo", mas a sua tripulação chamava-lhe o "Pequena Camisola", que é a tradução literal do termo escocês cutty sark.
2:26 Imagens ternurentas de uma mulher, desde os seus tempos de criança até ela própria ser mãe, ilustram este anúncio às câmaras de vídeo Sony, ao som de "Days" de Kirsty McColl.
2:46 Ao contrário dos dias de hoje, a banca nacional parecia respirar saúde, como era o caso do agora defunto Banif. Neste anúncio, publicitava-se o seu crédito habitação, protagonizado pelo actor Philippe Leroux.
3:02 Um anúncio à cerveja Super Bock por entre várias das belas paisagens do nosso país. De referir que a voz do anúncio é a do recentemente falecido Jaime Fernandes.
3:47 Perante as aflições do pai com a canalização, três miúdos decidem construir uma arca de Noé com peças de Lego Duplo.
4:08 Os anúncios aos perfumes são um must desta época. Neste caso, um curto mas sensual anúncio em preto e branco a Eternity de Calvin Klein, com a top model Christy Turlington.
4:18 Também não podiam faltar as sugestões discográficas. E decerto que no Natal de 1995, a segunda colectânea N.º 1 do ano esteve no sapatinho de muitos portugueses, incluindo eu. Este volume não tinha a presença do Fido Dido na capa, mas estava recheado de vários sucessos da altura como "Over My Shoulder" dos Mike & The Mechanics, "Country House" dos Blur, "Dançam No Huambo" dos Kussondulola, "Scatman's World" de Scatman John e "Abreu" dos Black Company, além de que o rodapé indicava também a inclusão de temas de Céline Dion, Take That, Santos & Pecadores, Shaggy e Annie Lennox.
4:40 Mais um anúncio a bancos, desta vez ao Crédit Lyonnais, com imagens do velocista americano Leroy Burrell que nesse ano de 1995 tinha batido o recorde do mundo dos 100m em 9 segundos e 85 centésimos. No final, imagens de adeptos da selecção sueca de futebol, quiçá porque o azul e o amarelo também eram as cores deste banco. 
4:53 Um divertidíssimo anúncio à campanha de brinquedos dos hipermercados Jumbo, em que os adultos portam-se como crianças diante de tanto brinquedo, para grande espanto das verdadeiras crianças ali presentes. Onde era possível adquirir uma Sega Mega Drive por apenas 19990 escudos (menos de 100 euros).
5:30 O célebre Mimo, imagem de marca dos anúncios da TMN (actual MEO) nos anos 90.
5:35 Um artístico anúncio com espectaculares e precisos movimentos coreográficos, tal como a precisão dos relógios Raymond Weil.
6:05 Videocontos, uma colecção da Planeta Agostini que reunia em VHS adaptações animadas de várias histórias infantis.
6:18 Promo à telenovela "A Próxima Vítima".
7:01 ...que era patrocinada pelo leite Mimosa Especial Cálcio.
7:07 Anúncio à Grande Gala do Dia Mundial contra a SIDA, a ter lugar no Centro Cultural Belém no dia 1 de Dezembro, com a presença de grandes nomes da música nacional como Sara Tavares, Rui Veloso, Luís Represas, Lena D'Água, Helena Vieira, Rita Guerra e Luís Portugal.
7:32 Início da segunda parte do filme "Royce" em "Noite de Estreia", espaço então patrocinado pela Samsung.

 
0:02 Promo à série "Camilo & Filho", a sitcom que marcou o regresso de Camilo de Oliveira aos ecrãs nacionais, sendo a primeira de várias séries protagonizadas por Camilo, sempre com o seu nome no título. Mas ainda assim esta foi a mais marcante, tendo sido inesquecíveis as desventuras do sucateiro Camilo e o seu filho Alberto, interpretado por Nuno Melo. Infelizmente, os dois já não se encontram entre nós.
0:43 Os brinquedos Chicco patrocinavam "Camilo & Filho"
0:47 Promo a outro mítico programa da SIC da altura, o "Não Se Esqueça de Escova de Dentes". Como o Natal é quando a mulher quiser, Teresa Guilherme decidiu ter um programa especial de Natal em Novembro. Programa esse que conteve aquele que foi, tanto para mim como para Teresa Guilherme, um dos mais bizarros momentos do "Escova" quando um grupo de concorrentes vestido como figuras do presépio desataram à pancadaria no palco para ganhar uma viagem ao Brasil. (Ler sobre isto aqui). De referir ainda que Alexandra era a convidada musical e a aparição no fim de uma Lúcia Moniz pré-fama.
1:31 "Não Se Esqueça da Escova de Dentes" tinha patrocínio dos preservativos Control (o que de certa maneira fazia todo o sentido).
1:37 Um curtíssimo anúncio ao perfume Acenti da Gucci.
1:42 O então próximo ano de 1996 seria um ano para esquecer? Talvez comprando um Peugeot 106 ou 306, já que havia a possibilidade de se pagar a primeira prestação em 1997.
1:59 Outra vez o divertido anúncio à campanha de brinquedos do Jumbo.
2:34 Uma dissecação ao whisky Logan.
3:04 Os Rolling Stones editavam na altura o álbum "Stripped" que consistia em versões acústicas e ao vivo dos seus temas durante a digressão "Voodoo Lounge". Duas das faixas do álbum foram gravadas em Lisboa. Além de vários temas conhecidos dos Stones, havia também uma versão de "Like A Rolling Stone" (não podia ser mais apropriado!) de Bob Dylan.
3:25 Um senhor de grandes posses decide no último momento em vez de cavalgar até ao estábulo conduzir um Opel Astra, para aflição do motorista.
3:56 Imagens de cenas cómicas do tempo do cinema mudo ilustram o anúncio ao Dicionário do Português Básico, que podia ser adquirido em fascículos às quartas feiras com o Correio da Manhã.
4:16 Já falámos noutro texto de análise sobre este anúncio ao whisky Jack Daniels, onde os funcionários da destilaria se entretêm a jogar com rolhas enquanto o whisky envelhece.
4:46 O mercado discográfico natalício é sempre a ocasião perfeitas para vários cantores e bandas lançarem um álbum de greatest hits. Foi o caso dos Roxette que nesse ano de 1995 o seu álbum best of com o título "Don't Bore Us, Get To The Chorus" que reunia catorze dos maiores sucessos do famoso duo sueco como "The Look", "Dressed For Sucess", "Sleeping In My Car" e "It Must Have Been Love", para além de quatro temas inéditos. Eu tive este disco em cassete meses mais tarde.
5:08 Teresa Guilherme apresenta este anúncio ao Seat Cordoba onde a dita viatura é recebida em apoteose por uma multidão.
5:36 Nessa semana estreava em Portugal o filme "O Beijo" ("French Kiss"), comédia romântica com a então rainha das comédias românticas Meg Ryan e Kevin Kline.
5:51 Mais um anúncio ao Cutty Sark, desta vez parodiando os anúncios às chamadas de valor acrescentado.
6:11 Promo ao programa de apanhados "Minas E Armadilhas", apresentado por Júlio César e na altura com a presença da francesa Marlène Mourreau, uma actriz, pin-up e apresentadora que nesse ano foi candidata presidencial em França pelo Partido do Amor(!). Apesar de francesa e deste pequeno périplo em Portugal, Marlène fez a maior parte da sua carreira em Espanha. A promo termina em beleza com um trocadilho de trazer por casa.
6:38 Início da 4.ª parte do filme "Royce"



0:00 Um relembrar do que restava da programação para esse dia: o  "Último Jornal", a série animada "Comportamento Animal" (da qual se verá um episódio mais adiante) e o espaço de debate político "Flashback" (um antepassado da "Quadratura do Círculo").
0:53 Outra vez o anúncio dos televisores Grundig com o crocodilo.
1:14 Uma criativa dobragem a uma dramática cena com Jacqueline Bisset para publicitar as condições especiais para os clientes da Renault.
1:39 Outra vez o anúncio do Crédit Lyonnais com Leroy Burrell.
1:55 Anúncio ao segundo volume da colectânea do programa "All You Need Is Love", outro disco recheado de temas românticos como "Tell It Like It Is" de Don Johnson (sim, o Sonny Crockett também cantava!), "Toy Soldiers" de Martika, "I Want You To Want Me" dos Cheap Trick e "We're All Alone" de Rita Coolidge.
2:16 Mais um anúncio a whisky, desta vez à marca escocesa Grant's.
2:46 Vilamoura receberia entre 7 e 9 de Dezembro desse ano o 8.º Torneio de Golfe Grande Troféu Vilamoura.
2:54 Outra sugestão discográfica, desta vez vinda de Itália: "Paradiso" de Luciano Bruno, um cantor italiano radicado no Brasil, onde este interpretava vários temas conhecidos da "canzone italiana". Gosto do facto da voz-off dizer "Garanto que é bom".
3:14 Mais um anúncio do Crédit Lyonnais, desta vez com o ucraniano Sergey Bubka, a grande lenda do salto à vara, que nesse ano de 1995 tinha sido campeão mundial pela sétima vez e batido o último dos seus 14 recordes mundiais.
3:29 E mais um anúncio ao Cutty Sark, desta vez subvertendo os créditos finais dos filmes. Se repararem com atenção, notarão muitas trocas e baldrocas nos nomes escritos como por exemplo, Martin Lucas e George Scorcese ou Geena Ryder e Winona Davis.
3:44 "Vamos Curtir", o novo disco dos Starkids, uma espécie de herdeiros dos Ministars, onde estes versionaram temas como "Think Twice" ou "O Bicho".
4:05 De novo anúncio ao Opel Astra.
4:39 E de novo a promo ao programa "Crossfire" com Luís Nobre Guedes e árvore de Natal do Chivas Regal.
5:11 As seitas religiosas eram o tema do próximo programa de "Casos de Polícia" com Carlos Narciso, na altura um programa que causou bastante impacto devido às suas reportagens de investigação criminal. A escolha deste tema das seitas não era estranha aos acontecimentos do verão desse ano relacionados com a Igreja Universal do Reino de Deus, sobretudo a pretensão desta em comprar o Coliseu do Porto, que gerou uma onda indignação entre os portuenses. 
5:51 O programa de documentário e investigação "Toda A Verdade" dessa semana era dedicado ao mais notório serial killer da União Soviética, com o título "A Alma da Besta". Andrei Chikatilo, um aparente cidadão exemplar, era o "carniceiro de Rostov" que terá assassinado, violado e até praticado canibalismo a mais de cinquenta mulheres e crianças entre 1978 e 1990. Condenado por 52 homicídios, Chikatilo foi executado em 1994. Nem seria preciso a advertência da voz off para se saber que esta reportagem continha imagens chocantes e que representava uma descida às profundezas da crueldade humana. 
6:39 Novamente o anúncio à Grande Gala do Dia Mundial contra a SIDA.
7:05 Mais um evento musical: a oitava edição dos Festivais de Outono em Lisboa e Porto com os Tetvocal, um grupo acapella que fez sucesso na altura.
7:20 Um episódio da série animada "Comportamento Animal" ("Beastily Behaviour"), narrada por Rui de Sá (a voz do Egas da "Rua Sésamo"), que explicava através de uns desenhos divertidos e coloridos os curiosos comportamentos de alguns animais. Neste episódio, ficamos a conhecer certas curiosidades sobre o comportamento sexual do polvo, como o facto da fêmea só querer copular depois de muita excitada e de que a consumação dar-se através da introdução de um dos tentáculos do macho no interior da fêmea.     
8:40 Início do programa "Flashback" com transmissão simultânea na SIC e na TSF, conduzido por Carlos Andrade e a participação de Pacheco Pereira, Jaime Magalhães e Nogueira de Brito.

1.º vídeo bónus: Meteorologia SIC (27-11-1995) com Christina Mohler:


2.º vídeo bónus: Último Jornal (27-11-1995) com Alberta Marques Fernandes:




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Survivor Portugal (2001)

por Paulo Neto

Os reality shows já existiam antes mas na viragem do século, esses produtos televisivos atingiram outro nível ao quebrar de vez com a barreira mitológica que existiam entre as pessoas do mundo da televisão e os cidadãos comuns. Tornou-se cada vez mais fácil para um cidadão anónimo tornar-se um nome e um rosto reconhecido por toda a população pelo simples facto de aparecer num programa de televisão e onde nem sequer precisava necessariamente de ter um determinado talento.



Em muitos países, como Portugal, essa barreira foi quebrada com a sua respectiva edição nacional do "Big Brother" ou afins (como "Loft Story" em França). Porém nos Estados Unidos, o programa que é considerado como a primeira grande referência dos reality shows no século XXI foi "Survivor", quando no ano 2000 o seu sucesso ofuscou a primeira edição americana do "Big Brother", estreada na mesma altura.

O conceito do "Survivor" foi criado em 1992 pelo britânico Charlie Parsons para tentativamente ser vendido a um canal britânico. Porém, a primeira edição da franchise que se realizou foi na Suécia em 1997 com o título "Expedition Robinson". Isto pois se o "Big Brother" remetia para a obra "1984" de George Orwell, "Survivor" fazia lembrar "Robinson Crusoe" de Daniel DeFoe já que a premissa do programa era a de ver desconhecidos a sobreviver num lugar selvagem e inóspito algures no mundo, como Robinson Crusoe.
Embora a estrutura do programa tenha tido várias variantes conforme o local, o país que produzia e a temporada, a principal variante é esta: Os concorrentes são divididos em duas tribos e em locais separados (como por exemplo ilhas diferentes) onde têm construir um abrigo com os poucos recursos que dispões e alimentar-se daquilo que possa haver de comestível no local. Além dos parcos meios fornecidas pela produção, cada concorrente teve direito a levar um objecto de luxo, para de certo modo poder facilitar a sua estadia no local.  A cada semana há um desafio onde as tribos lutam por uma recompensa (como comida, ferramentas ou produtos de higiene) e outro desafio em que lutam pela imunidade. Os elementos da tribo que perder este desafio terá de votar um deles para ser expulso do jogo. Quando restarem um determinado número de concorrentes (geralmente dez), estes formarão uma única tribo e a partir daí os desafios de recompensa e imunidade serão a nível individual. No final, o vencedor é escolhido pelos concorrentes eliminados.
A franchise, quer como "Survivor" quer como "Expedition Robinson", já foi vendida para mais de 40 países, desde 1997. Em alguns países, como Espanha e Itália, houve edições com celebridades. A franchise continua em exibição em vários países como Dinamarca, França, Holanda, Roménia, Eslovénia e Estados Unidos, onde já vai na 33.ª (!) edição.

logótipo da edição portuguesa


Em Portugal, houve apenas uma edição do "Survivor", filmada no Panamá durante 39 dias no Verão de 2001, tendo estreado na TVI a 6 de Outubro, com o último episódio a ser transmitido a 30 de Dezembro. O programa teve apresentação de Paulo Salvador, com cada episódio a ser transmitido aos sábados à noite, além de pequenos blocos conduzidos por Teresa Guilherme ao longo da semana.



No entanto, apesar de não ter tido fracas audiências (ou não estivéssemos em pleno boom do primetime da TVI), a única edição portuguesa do "Survivor" passou algo despercebida e parece caída no esquecimento geral. Para tal, haverá sobretudo quatro explicações: a estreia na mesma altura do Big Brother 3 e de várias telenovelas na TVI que eclipsaram a estreia do "Survivor", a falta de interactividade com o público já que o programa estava gravado e as expulsões dependiam somente dos concorrentes, não ter havido nenhum momento icónico que tivesse ficado para a posterioridade (como o pontapé do Marco no "Big Brother", o calvário parental de Margarida em "O Bar Da TV" ou a pancadaria sobre rodas entre Gisela e Sandra no "Masterplan") e talvez até ao facto de os nossos Survivors nacionais terem optado por jogar limpo em detrimento de intrigas, alianças ou manipulações (que fizeram parte do sucesso da primeira versão americana, que foi ganha pelo concorrente considerado como o vilão).

Foi muito difícil conseguir informação na internet sobre o "Survivor" português, pelo que os principais recursos que usei para este texto são a minha memória e o já inevitável livro "Isso Agora Não Interessa Nada" de Teresa Guilherme.
 
- Foram dezasseis os concorrentes, oito homens (António, Fred, Luís, Miguel, Paulo, Pedro, Ricardo e Roberto) e oito mulheres (Aida, Ana Luísa, Ana Marta, Andreia, Carla, Catarina, Miriam e Sofia).
Não soube as idades, profissões e localidades de todos, mas lembro-me que Andreia era a concorrente mais nova com 19 anos e Miguel e Roberto já estavam na casa dos quarenta. Eram de vários pontos do país e havia um concorrente açoreano, mas não sei qual.
- Numa primeira fase, os concorrentes foram divididos em duas tribos: Ana Marta, António, Carla, Catarina, Fred, Miguel, Paulo e Sofia formaram a tribo Sikui (que quer dizer "pássaro" no idioma indígena local), simbolizada pela cor laranja e Aida, Ana Luísa, Andreia, Luís, Miriam, Pedro, Ricardo e Roberto a tribo Ua ("peixe"), simbolizada pela cor amarela.
- Catarina foi a primeira concorrente a ser expulsa da ilha, sendo notória a sua falta de adaptação à ilha. Andreia foi a primeiro expulsa da tribo Ua. Ana Marta, Roberto, Sofia e Luís foram os outros concorrentes expulsos antes da fusão das tribos.
- Nos últimos desafios antes da fusão, cada tribo elegeu um membro para jogar com a outra tribo (não podendo ser eliminado). Ana Luísa foi escolhida para competir com os Sikui e Carla com os Ua.
- Com a fusão tribal, os dez concorrentes restantes passaram a formar tribo Baluti ("onda"), com a cor verde. Mesmo antes da reunião, Fred adoeceu e foi impedido pelos médicos de continuar no concurso. Em seu lugar, Sofia, que tinha sido a última concorrente Sikui eliminada, regressou ao jogo, mas ela não pareceu muito satisfeita com isso e foi eliminada por unanimidade na primeira votação da tribo Baluti. Sofia viria a participar no "Fear Factor", (no mesmo episódio onde participaram uns então pouco conhecidos Cifrão e Gustavo Santos).
- Recordo-me que uma prova de recompensa, quando só restavam seis ou sete concorrentes, consistia em eles se verem ao espelho pela primeira vez e calcular quanto peso tinham perdido desde que tinham chegado à ilha, ganhando aquele que se aproximasse mais da diferença perdida. No entanto, essa prova foi ganha por Aida que calculou correctamente que tinha...engordado um quilo!
- Mas foi Carla que ganhou aquela que sem dúvida foi a melhor recompensa do concurso que foi uma noite numa espécie de spa a céu aberto com um buffet de saladas e frutas. Para acompanhá-la ela escolheu Pedro.
- Aliás, tais eram as privações no local, que também me recordo dos membros da tribo Sikui quase a chorar de alegria ao descobrirem que por entre as recompensas que tinham ganho após um desafio, estavam para além de um cesto carregado de frutas que não existiam na ilha, vários pacotes de sumo Compal!



Segundo Teresa Guilherme, não foram só os concorrentes que passaram por muitas privações e dificuldades no Panamá. Também a equipa de produção e de filmagem sofreu bem na pele os tormentos das intempéries e dos mosquitos.
"Estávamos separados por um mar de correntes furiosas, ondas de três andares e tudo envolto num assustador tom a atirar para um cinza muito escuro. E isto porquê? Porque durante os dois meses que estivemos no Panamá, todos os dias chovia muito, muitíssimo, a potes. (...)
Mas esta molha diária era uma gota de água comparada com os ataques das hordas de mosquitos. (...)
Claro que (...) usámos um repelente contra a tal bicharada, como se estivéssemos a acampar civilizadamente no parque de campismo de uma albufeirita qualquer. 
E ao cair da tarde, eles atacaram. Em menos de três minutos, e por mais que os enxotássemos freneticamente, fomos devorados. E lá passámos a ter mais uma ocupação diária: coçar as centenas de mordidelas que se transformavam em babas gigantescas, (...).
Não fosse o médico da equipa que nos encharcou de anti-histamínicos, todos teríamos hoje as pernas e o resto do corpo ainda mais marcada do que temos."  
Além disso, o regresso a Portugal foi complicado para todos. Basta dizer que foi durante o mês de Setembro de 2001.

No último episódio, restaram apenas quatro concorrentes: Pedro, Miriam, Paulo e Ana Luísa. Estes dois últimos foram eliminados após uma última série de desafios, com Pedro e Miriam a tornarem-se os dois finalistas. Os sete últimos concorrentes eliminados regressaram para elegerem o vencedor entre eles os dois e apenas Ana Luísa votou em Miriam, pelo que Pedro Besugo foi o vencedor do (até agora) único "Survivor" português. O artista plástico ganhou o prémio final de 10 mil contos (50 mil euros).
Pelo que me recordo a vitória de Pedro Besugo foi merecida pois tinha sido quase sempre dos melhores nas diversas provas e reunia a simpatia e o consenso dos colegas.



Outro concorrente marcante do Survivor foi António Gamito que anos mais tarde, voltou a ser notícia, desta vez pela sua relação de dois anos com Alexandra Lencastre. Com o seu aspecto neo-hippie de cabelo à surfista, tatuagens, fita na cabeça e atitude zen, o fotógrafo parecia mesmo o concorrente ideal para este tipo de desafio. E portou-se bem, sendo um dos últimos a ser eliminado, senão me engano, foi o último antes do episódio final.
No seu livro "Isso Agora Não Interessa Nada", Teresa Guilherme dedicou-lhe um texto, recordando um episódio do "Survivor". Enquanto outros concorrentes escolheram coisas práticas como o seu objecto pessoal, António escolheu levar a sua prancha de surf. Mas esse objecto de luxo acabou por deixá-lo meio lixado.
Primeiro, porque durante a maior tempo chovia bastante e o mar estava demasiado revolto e havia maiores preocupações para ele e os outros concorrentes como arranjar abrigo e comida, pelo que a prancha ficou arredada durante muito tempo.
"Mas houve um dia em que apareceu uma nesguinha de sol e o Gamito decidiu arrefecer as ideias para dentro de água, e fazer umas habilidades com a sua prancha que deixassem os companheiros de queixo caído. E deixou. O dos companheiros e o dele.
Mal entrou na água atirou-se para cima da prancha mas em vez de deslizar, afundou-se. Bateu violentamente contra a prancha e abriu uma valente lanho no queixo. (...) Em teoria, era um craque do surf de Portugal e arredores e afinal quando chegou aos arredores: crack! Deixou-se bater por uma onda que não tinha mais de 20 centímetros. (...)
E lá tivémos de chamar o pachorrento Dr. Nestor. Chegou de barco com a sua caixa de primeiros socorros e, ali mesmo na praia, sem qualquer tipo de anestesia deu uns valentes pontos no queixo caído do António Gamito - que não deu nem um pio, portando-se como um verdadeiro sobrevivente. 
As companheiras da ilha, que suspiravam por eles às escondidas, é que aproveitaram a oportunidade para o encher de mimos. Ele com o queixo à banda e elas pelo beicinho."



O único vídeo do "Survivor" português que encontrei no YouTube foi  esta promo da TVI, muito apropriadamente ao som de "Survivor" das Destiny's Child. (Na altura, o grupo passava por tantas mudanças na sua forma que os media compararam estar no grupo a concorrer ao "Survivor", o que inspirou o tema).








segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Filadélfia (1993)

por Paulo Neto

Em 1993, havia ainda muito estigma e ideia erradas quanto à SIDA e a sua forma de contágio, nomeadamente que se podia apanhar o vírus por tocar numa pessoa com a doença ou que era uma doença exclusivamente restrita à comunidade homossexual e a grupos marginais da sociedade como toxicodependentes e prostitutas.


Mas foi nesse ano que estreou o primeiro filme de Hollywood a abordar de forma aberta e sem juízos de valor a SIDA e outros temas relacionados como a homofobia. "Filadélfia" foi o primeiro filme de Jonathan Demme após a sua consagração com "O Silêncio Dos Inocentes" em 1991, com Tom Hanks e Denzel Washington nos principais papéis.



Andrew Beckett (Hanks) é um advogado que trabalha para uma das mais prestigiadas firmas legais de Filadélfia que devido ao conservadorismo dos seus chefes esconde a sua homossexualidade, a sua relação com Miguel Alvarez (Antonio Banderas), um imigrante latino-americano e sobretudo que tem SIDA, tendo sido contagiado num encontro sexual fortuito no passado. 
Quando Beckett é despedido devido a uma complicação durante um caso importante que só foi resolvida no último momento, ele desconfia que foi vítima de uma cilada montada pelos seus chefes para terem uma desculpa de justa causa para o despedirem por causa da sua doença, porque um dos sócios, Bob Seidman (Ron Vawter) reconheceu uma lesão na testa dele como um sintoma de um sarcoma causado pela SIDA.  

Beckett decide processar a firma com a ajuda do advogado laboral Joe Miller (Washington), que inicialmente recusou representá-lo, tendo mesmo pensado que poderia estar contagiado ao apertar-lhe a mão. Mas após assistir a um acto de discriminação contra Beckett na biblioteca, Miller decide ajudá-lo.    
Enquanto os dois levam o processo ao tribunal, Beckett acaba por se tornar amigo de Miller e da sua esposa Lisa (Lisa Summerour) e Miller acaba por abandonar as suas fortes ideias homofóbicas ao conviver com Beckett, Miguel e seus amigos, percebendo que pessoas homossexuais são pessoas normais e que muitas vezes não correspondem às ideias pré-concebidas da sociedade quanto a essa comunidade.

Em tribunal, a defesa põe Beckett em causa, não só a sua competência mas como também a sua vida privada, sugerindo que a sua doença é resultado de uma vida sexual depravada e desregrada. Mas Beckett e Miller acabam por ganhar o processo, sendo a firma condenada a indemnizá-lo por danos morais. Beckett acaba por falecer pouco tempo depois, e o filme termina com o seu funeral, onde familiares e amigos, incluindo Miller, estão presentes. 

O elenco de "Filadélfia" incluiu também nomes como Mary Steenburgen, Jason RobardsJoanne Woodward, Ann Dowd e Charles Napier. Foi também um dos primeiros filmes da actriz Chandra Wilson, no papel de uma maquilhadora a quem Beckett recorre para cobrir as suas lesões e que já viu um familiar seu morrer de SIDA.



A história do filme é semelhante à de dois casos reais de dois advogados, Geoffrey Bowers e Clarence Cain, que processaram os seus superiores por terem sido despedidos por terem SIDA. A família de Bowers chegou a processar os produtores do filme por usar a sua história real sem o devido crédito, tendo sido estabelecido um acordo entre as partes.



"Filadélfia" foi um sucesso junto do público e da crítica. A realização de Jonathan Demme é sóbria e segura, evitando que a história caísse no excesso de drama e na lágrima fácil, mas o grande trunfo foi sem dúvida a interpretação de Tom Hanks, que lhe valeu o Óscar de Melhor Actor e outras distinções. Até então associado sobretudo com comédias, Hanks demonstrou também a sua grande habilidade para os desempenho dramáticos. 
O filme também é referido como tendo sido importante para mudar as percepções sobre SIDA e homossexualidade junto do grande público, não só na América mas além fronteiras, e promover retratos mais realistas de personagens homossexuais e lésbicas no cinema de Hollywood.
No entanto, foi preciso esperar até 2013 para que outro filme de Hollywood em que a SIDA fosse o tema principal, "O Clube de Dallas", alcançasse semelhante notoriedade.  

"Filadélfia" foi um dos filmes que eu vi em 1994, o ano em que passei a ir regularmente ao cinema e também vi mais tarde na escola, creio que no 11.º ano e por ocasião do Dia Mundial da SIDA que se celebra a 1 de Dezembro. 

Por fim, não dá para falar do filme "Filadélfia" sem falar da hipnótica canção da sequência inicial, "Streets Of Philadelphia" de Bruce Springsteen, que venceu o Óscar de Melhor Canção e tornou-se um dos maiores hits da carreira do "Boss". A banda sonora incluiu também canções de Neil Young, Sade, Peter Gabriel, Spin Doctors e um ária de ópera de Maria Callas, que é tocada durante uma das cenas mais marcantes do filme.

Trailer:


Cena com a ária de Maria Callas:


"Streets Of Philadelphia" Bruce Springsteen




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