quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O Clone (2001-02)

por Paulo Neto

No início do século XXI, mesmo com a fábrica de telenovelas nacionais da TVI em plena marcha, algumas telenovelas brasileiras da Rede Globo exibidas na SIC ainda obtiveram bastante sucesso, como foi o caso de "O Clone", estreada no Brasil a 1 de Outubro de 2001 e em Portugal já em 2002. Por coincidência, a telenovela estreou no Brasil durante um período onde dois dos principais temas - a cultura muçulmana e a clonagem - estavam na ordem do dia já que a novela estreou poucas semanas após os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque e Washington, e em Novembro do mesmo ano, o médico italiano Severino Antinori anunciou que estava a trabalhar na primeira clonagem de um ser humano.



A telenovela era da autoria de Glória Perez e direcção de Jayme Monjardim. Além de características habituais como a abordagem a temas fracturantes e/ou preocupantes da sociedade actual e a divulgação dos costumes de um povo ou comunidade, com "O Clone", Glória Perez iniciou mais uma característica típica que continuaria nas suas telenovelas seguintes: a de uma realidade internacional alternativa onde em qualquer país todos falam português do Brasil fluentemente. Neste caso, em Marrocos, todos eram versados no idioma de Vinícius de Moraes.

Lucas e Jade


A trama de "O Clone" inicia-se em 1983 e estende-se até à então actualidade e passava-se entre o Rio de Janeiro e a cidade marroquina de Fez. Os protagonistas eram Giovanna Antonelli e Murilo Benício, que se desdobrou entre três papéis: os gémeos Diogo e Lucas, e Léo, o clone do título.
Jade (Antonelli) é uma bela muçulmana nascida e criada no Brasil que se muda para Fez após a morte da sua mãe, ficando à guarda do seu tio Ali (Stênio Garcia). Jade tem dificuldades em se adaptar às regras rigorosas do tio, que defende os costumes e tradições muçulmanas contra a influência ocidental, mas acaba por ficar muito amiga da sua prima Latiffa (Letícia Sabatella) e da governanta Zoraide (Jandira Martini).

Os irmãos gémeos Diogo e Lucas (Benício), filhos do abastado empresário Leônidas (Reginaldo Faria), chegam à cidade marroquina, onde ficam fascinados com o misticismo do local e as paixões que ele desperta. Diogo, o gémeo dominante que está prestes a suceder ao pai nos negócios, envolve-se com madura e sensual Ivete (Vera Fischer) enquanto Lucas se apaixona por Jade. O amor de ambos não é aceite pela família da jovem, que está noiva de Said (Dalton Vigh), e depois de muitas tentativas de fuga falhadas, os dois acreditam que não estão destinados a ficar juntos e desistem de lutar.
Leônidas e Ivete

Entretanto Diogo morre num acidente de avião após uma discussão com o pai ao descobrir que este namora com Ivete. Motivado pela tristeza de Leônidas pela sua perda, o cientista Augusto Albieri (Juca de Oliveira) decide criar um clone com o ADN de Lucas. A experiência é bem sucedida, através de uma inseminação artificial em Deusa (Adriana Lessa), uma mulher que pretende engravidar e que dá à luz um rapaz chamado Leandro, mais conhecido como Léo, que cresce sem saber que é o primeiro clone humano.

Léo e Albieri
Deusa



Os anos passam e Jade e Lucas viveram infelizes longe um do outro. Jade teve uma filha de Said, Khadija (Carla Diaz) e sofre com a dureza de Said, que mesmo apaixonado pela esposa, nunca se conformou por ela amar outro e trata-a com severidade e nem quando Said arranja uma segunda esposa, Ranya (Nívea Stelmann), ou com a mudança da família para o Brasil a situação se altera.
Já Latiffa casou com Mohamed (António Calloni), irmão de Said e teve dois filhos, Samira (Stephany Brito) e Adim (Thiago de Oliveira) e é feliz no seu papel de esposa e mãe muçulmana. Só fica fora do sério quando o marido ou a cunhada solteirona Zanira (Eliane Giardini) falam na ideia de uma segunda esposa.
Jade, Khadija e Said
Samira, Mohamed, Latiffa e Amin


Lucas assumiu contrariado o lugar do irmão casando mesmo com a namorada deste, Maysa (Daniela Escobar) de quem teve uma filha Mel (Débora Fallabella). Reflexo do casamento infeliz dos pais, Mel é uma jovem problemática que acaba por cair na droga, que a arrastará para uma espiral dolorosa, mesmo depois de se apaixonar por Xande (Marcelo Novaes), que tinha sido contratado como seu guarda-costas. O problema da toxicodependência foi vivido por outras personagens; Nando (Thiago Fragoso), um jovem com uma carreira promissora de advogado a quem a droga deita quase tudo a perder, Regininha (Viviane Victorette), amiga de Mel que acaba por falecer, e Lobato (Osmar Prado) que luta há vários anos contra a dependência ao álcool e cocaína.

Lucas e Maysa
Xande e Mel

Ao fim de muitos anos, Jade e Lucas reencontram-se e o amor que ambos julgavam extinto reacende-se, ainda que as dificuldades sejam maiores que nunca. Além disso, além de Said, existem mais outros dois apaixonados por Jade; o garboso Zein (Luciano Szafir) e o clone Léo, ou não tivesse ele o  ADN de Lucas.

Zein
Alicinha
Karla
Odete

Entre outras personagens contam-se Edna (Nívea Maria), a amargurada esposa de Albieri; Alicinha (Cristiana de Oliveira) uma mulher pérfida e dissimulada; Miro (Raúl Gazolla), namorado de Alicinha e objecto de desejo de Nazira; Karla (Juliana Paes), jovem sensual e oportunista que planeia um golpe de maternidade em Tavinho (Victor Fasano); Abdul (Sebastião de Vasconcellos), um muçulmano ultraconservador que abomina as mulheres "espetaculosas"; Odete (Mara Manzan), uma excêntrica comedora de fogo com o seu bordão "cada mergulho é um flash" e Dona Jura (Solange Couto), mãe de criação de Xande e dona do bar no bairro de São Cristóvão, também ela com um bordão popular: "Não é brinquedo, não!".

Dona Jura
Zanira e Miro



"O Clone" contou ainda com a participação da actriz portuguesa Maria João Bastos no papel de Amália, uma jovem e elegante jornalista que a certa altura disputa Leônidas com Yvete, mas que acaba com Cecéu (Sérgio Marone). Além disso muitas personalidades da cultura e do desporto apareceram na telenovela, sobretudo no Bar da Jura, como o rei Pelé, Roger (que na altura jogava no Benfica), Ronaldinho Gaúcho, Dunga, Jairzinho, o basquetebolista Óscar Schmidt, os cantores Alcione e Martinho da Vila e a apresentadora Ana Maria Braga. E até mesmo estrelas internacionais da música como o italiano Alessandro Safina e o americano Michael Bolton, que tinham músicas suas na banda sonora da telenovela.

Amália e Leônidas
Pelé e Roger


Com os acontecimentos do 11 de Setembro, temeu-se que a telenovela não fosse bem aceite pelo público, já que um dos núcleos principais era com personagens muçulmanas. No entanto, tal não veio acontecer e pelo contrário, não só "O Clone" foi um sucesso como aumentou interesse sobre a cultura muçulmana em vários países onde foi exibida. Por exemplo, no Brasil, popularizaram-se algumas expressões árabes como Inshalah e Maktub, bem como instrumentos típicos árabes. Em Portugal, a telenovela suscitou uma grande procura por aulas de dança do ventre e viu-se nas feiras e nas lojas de roupas alguns adereços de inspiração árabe como túnicas e faixas com berloques de atar à cintura.



Outro grande factor do sucesso da telenovela foi par protagonista e tal foi a química entre Murilo Benício e Giovanna Antonelli que se tornou mais um caso de uma química que extravasou para fora das câmaras, para uma relação que durou quatro anos e que gerou um filho em comum. (Curiosamente, a actual companheiro de Benício é Débora Fallabella, que fazia de sua filha em "O Clone" e cujo romance começou em "Avenida Brasil".)   

Capa da banda sonora internacional
Capa do álbum com músicas de dança do ventre

"O Clone" também notabilizou-se por produzir oito (!) álbuns de bandas sonoras: além dos dois habituais volumes com os temas nacionais e internacionais da telenovela, também foi editado um álbum com músicas de dança do ventre, dois álbuns com temas instrumentais da autoria de Marcus Vianna, um álbum com a música tocada no bar da Dona Jura, outro com a música lounge da discoteca Nefertiti e um com temas utilizados na versão transmitida em Espanha e na América Latina.    

Genérico do abertura:


Amor à primeira vista entre Jade e Lucas:



O encontro entre o clone e o original:


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"Freedom '90" George Michael (1990)

por Paulo Neto

Ao falecer no passado dia de Natal, o nome de George Michael foi acrescentado à lista da enorme ceifa de celebridades do ano de 2016. Despedia assim deste mundo um dos maiores nomes da música pop das décadas de 80 e 90. (Não será exagero dizer que apenas Madonna e Michael Jackson estiveram num patamar superior ao de George nos anos 80.) O David Martins já lhe prestou aqui homenagem falando de "Last Christmas", um dos maiores sucessos dos Wham! e uma das mais lendárias músicas natalícias da era moderna, e hoje pretendo abordar um dos temas mais marcantes da sua carreira a solo.
Em 1990, George Michael estava disposto a deixar para trás a sua imagem de ídolo pop para se fazer notar mais pelo seu talento como intérprete e compositor. Depois do sucesso do seu primeiro álbum a solo "Faith" (1987), o álbum seguinte "Listen Without Prejudice vol. 1" marcou uma viragem no seu repertório, com sonoridades mais acústicas e melancólicas. (Um "volume 2", com sonoridades mais dançáveis esteve tentativamente previsto para 1991, mas nunca se concretizaria). Apesar das boas críticas, o álbum vendeu bastante menos que o predecessor (pelo menos nos Estados Unidos) e tudo terminaria numa longa e penosa batalha legal entre George Michael e a Sony Music. 


O álbum continha belíssimas baladas como "Praying For Time" (cujo videoclip pode-se considerar um dos primeiros lyric videos) mas aquela que se tornou a faixa mais famosa de "Listen Without Prejudice" é uma das mais dançáveis dos disco. "Freedom '90" (o "90" foi acrescentado para não se confundir com o tema dos Wham! também intitulado "Freedom"). Nele George Michael canta em como aproveitou os tempos em que era o ídolo das miúdas e estava nos píncaros do sucesso, mas que entretanto se tornou mais cínico quanto à indústria musical e que agora pretende fazer o que quer e como quer e não o que os outros pretendem, abraçando uma nova liberdade, culminando no explosivo refrão: "Freedom! Freedom! Freedom! You gotta for what you take!"

Mas é claro que a canção é sobretudo lembrada pelo videoclip, realizado por David Fincher, hoje um respeitadíssimo realizador de cinema ("Sete Pecados Mortais, Clube de Combate", "O Estranho Caso de Benjamin Button"), onde no que parece ser uma mansão algo decrépita, quase pós-apocalíptica, dez pessoas fazem o playback da canção, sendo que: a) George Michael não aparece no vídeo, b) os cinco homens que aparecem no vídeo são modelos e c) as cinco mulheres que aparecem no vídeo são supermodelos. Ou não estivéssemos no princípio da era dourada das top models.


As cinco supermodelos que surgem em "Freedom '90" são a camaleónica Linda Evangelista (que aqui está loura platinada), a eterna diva Naomi Campbell, a elegantérrima Christy Turlington, a sensual Cindy Crawford (que sim, estava toda nua quando foi filmada na banheira) e a alemã Tatjana Patitz, que com 1,80m era a mais alta das cinco. 


Mas também há que falar dos modelos masculinos que eram: John Pearson (o que está no sofá, com um blusão de cabedal e que é como que um George Michael substituto), Mario Sorrenti (o que está deitado no chão a acender e apagar um candeeiro, que mais tarde viria a ser um conhecido fotógrafo), Scott Benoit (o que está no chuveiro), Todo Segalla (o que está pendurado de pernas para o ar) e Peter Formby (o que está sentado debaixo de uma lareira vazia e que atira um avião de papel).

O videoclip de "Freedom '90" continha também um paralelismo com o videoclip de "Faith", a faixa-título do álbum anterior. Se no início de "Faith" é visto um disco de vinil a começar a ser tocado numa jukebox, em "Freedom" a música começa quando Linda Evangelista liga uma aparelhagem e o CD do álbum começa a tocar. Além disso, três objectos que apareciam proeminentemente em "Faith" - um blusão de cabedal, uma guitarra e a dita jukebox - são destruídos quando se ouve "Freedom!". 

Em 1996, Robbie Williams versionou a canção para o seu primeiro single após ter deixado os Take That, sentindo-se identificado com a letra. A versão de Williams foi criticada como quase sendo uma interpretação de karaoke e até o próprio admitiu que não se orgulhou muito da versão, não a tendo incluído no seu primeiro álbum. Não foi o começo mais fulgurante da sua carreira a solo, mas Williams não tardaria a mostrar que era capaz de bem melhor.




Entretanto a versão de George Michael tem sido amplamente usada no cinema e na televisão ("A História de uma Abelha", "Declaro-vos Marido e Marido", "It's Always Sunny In Philadelphia") e George Michael interpretou o tema na cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 2012 em Londres, naquela que viria a ser uma das suas últimas actuações ao vivo.



Quando questionadas sobre o videoclip, Linda Evangelista afirma que ainda hoje quando as pessoas a conhecem falam do vídeo (ela entraria noutro vídeo de George Michael, "Too Funky") e Cindy Crawford referiu certa vez que com o passar dos tempos, descobriu algum humor negro no facto de uma canção ser vendida por aparecerem dez caras bonitas em vez do cantor que realmente a canta.  

 

Renault Clio (1992)



Embalado com uma banda sonora para fazer bébés*... um violento arrufo de namorados e posterior fazer de pazes que só não fica mais intenso porque o anúncio acaba...




Vídeo digitalizado por CinemaXunga.
Editado por EnciclopédiaTV.
*Música:  "When a Man Loves a Woman" - Percy Sledge.

Gostava apenas de comparar com outra publicidade do mesmo ano, com o "Adão e Eva" automaticamente transformados em seres civilizados assim que entram no Clio:


Aliás há uma série de vídeos do Clio "Made in Paradise": Em 1991, 1993, 1994. Bem diferentes do de 1990, com uma espécie de Transformer vermelho. Aliás, o Lusitania TV tem uma gravação da versão portuguesa:


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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Sabrina, a Bruxinha Adolescente (1996-2003)


Sabrina, The Teenage Witch - “Sabrina, a Bruxinha Adolescente” (”Sabrina, A Aprendiz de Feiticeira” no Brasil) - quase tão poderosa como a adulta Sabrina - já anda entre nós - humanos comuns - desde o inicio dos anos 60, na forma de banda desenhada; e nos pequenos ecrãs na série animada dos anos 70 feita pela clássica Filmation (Sport Billy, He-Man, Flash Gordon, etc).


Mas só em 1996 foi transformada - não por bruxaria - numa sitcom de imagem real, que estreou em 27 de Setembro de 1996, precedida alguns meses pelo telefilme homónimo [podem ver no Youtube].




A miúda Sabrina (Melissa Joan Hart, com 20 anos a fazer de 16) era gira e divertida de ver, mas o meu elemento favorito era o sarcástico gato preto Salem (um  feiticeiro transformado em gato por castigo de tentar conquistar o Mundo, com a voz de Nick Bakay), e o meu “desporto” consistia em tentar identificar quando estavam a utilizar um gato real ou o fantoche.


Nota: Não era nada complicado….


Em 2000, já com as audiências a baixar trocou de canal, mas só se aguentou três anos, totalizando 7 temporadas e um total de 163 episódios, a que se somam mais 2 telefilmes e uma nova série animada. Entre nós, várias temporadas passaram na RTP-2, antes da hora do jantar.


Genéricos:


Sabrina com as tias, as bruxas centenárias Hilda (Caroline Rhea) e Zelda (Beth Broderick):




Texto original publicado no Tumblr da Enciclopédia: Sabrina, The Teenage Witch (1996-2003).


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sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares [1924-2017]



Mário Soares, o ex-Presidente da República, ex-Primeiro-Ministro - Mário Alberto Nobre Lopes Soares - nasceu a 7 de Dezembro de 1924, em Lisboa e faleceu no dia 7 de Janeiro de 2017.
Destacou-se ainda antes na oposição ao regime de Salazar, pela qual foi preso 12 vezes - cumprindo um acumulado de 3 anos atrás das  grades - e depois deportado para São Tomé e Príncipe e mais tarde levado ao exílio em França. No regresso a Portugal depois do 25 de Abril e durante o PREC foi a figura de proa do "campo democrático" como diz a Wikipedia. Entre 1974 e 75 foi Ministro dos Negócios Estrangeiros e um dos impulsionadores da descolonização - que lhe valeu ódio de muitos até à actualidade - e da adesão à então CEE (Comunidade Económica Europeia). Aliás, foi o próprio que assinou o Tratado de Adesão já perto do final do seu terceiro mandato como Primeiro-Ministro, entre 1983 e 85. Já havia ocupado o cargo entre 1976 e 1977; e em 1978.


Foi também o segundo Presidente da República Portuguesa eleito por sufrágio universal na Terceira República (depois do 25 de Abril), e o primeiro não militar desde 1926. Eleito para dois mandatos, 1986-1991 e 1991-1996; em 2006 candidatou-se pela terceira vez, sendo derrotado por Cavaco Silva
Há muitos anos tive o prazer de cumprimentar pessoalmente Mário Soares no Aeroporto de Faro, creio que já depois do final do seu segundo mandato. Na altura surpreendeu-me pela simpatia e vigor. Vivendo aqui num recanto do Algarve menos turístico é raro cruzar com "celebridades" e figuras que estamos habituados a ver na televisão ou a ler em revistas e jornais.

Antes na Enciclopédia de Cromos, Mário Soares foi mencionado nos posts sobre a falecida esposa "Maria Barroso" -  a "eterna primeira-dama" com quem casou por procuração em 1945 por estar detido; "Canções da Eleições Presidenciais 1986"; e em tom mais humorístico, no post "Ilusões de Óptica". E no Tumblr, dois exemplares dos calendários da campanha para as Presidenciais de 1986, "Soares é Fixe":







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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Um Amor Inevitável (1989)

por Paulo Neto

2016 não quis terminar sem juntar mais uns nomes à sua grande ceifa de celebridades e entre o Natal e o fim de ano, despedimo-nos de George Michael, Carrie Fisher e a mãe desta, Debbie Reynolds.
Carrie Fisher permanecerá para a eternidade como a ultra-lendária Princesa Leia da saga "A Guerra das Estrelas". Mas eu - revelação chocante! - nunca me interessei muito pelo universo "Star Wars", o único filme inteiro que eu vi foi o infame Episódio 1 "A Ameaça Fantasma" (sim, o do Jar-Jar Binks) e só sei da história dos episódios 4 a 6 muito por alto. Talvez por isso, é-me particularmente fácil dissociar Carrie Fisher do seu papel mais mítico, até porque Fisher ao longo dos sessenta anos que esteve neste mundo foi muito mais que a princesa Leia: foi o fruto da união de duas estrelas como Eddie Fisher e Debbie Reynolds (e mais tarde enteada de Elizabeth Taylor), foi Hollywood no seu mais melhor mais cintilante e no seu pior mais excessivo, foi actriz com inúmeras aparições em filmes e séries de televisão, foi uma escritora de sucesso, foi alguém com um apurado sentido de humor e até lhe foi dada a permissão rara em Hollywood para uma mulher para envelhecer como um ser humano normal.



Tudo isto para dizer que o papel de Carrie Fisher que mais me marcou foi o de melhor amiga de Meg Ryan no filme "Um Amor Inevitável", um papel secundário mas em que Fisher arrasa em cada cena que aparece.  É uma personagem que facilmente podia cair na caricatura da mulher desesperada mas a quem Fisher consegue dar bastante dignidade. No original "When Harry Met Sally", "Um Amor Inevitável", filme de 1989 realizado por Rob Reiner e escrito por Nora Ephron, é um clássico da comédia romântica, com Billy Crystal e Meg Ryan no papel de um homem e uma mulher cuja relação vai-se gradualmente transformando de antipatia a amizade e por fim em amor.



Em 1977, Harry Burns (Crystal) e Sally Albright (Ryan), viajam de Chicago para Nova Iorque onde vão iniciar as suas carreiras após a universidade. A viagem é pautada por grandes discussões sobre as relações entre homens e mulheres, com os dois a terem opiniões bastante divergentes. Harry acredita que um homem e uma mulher não podem ser apenas amigos porque a parte sexual, mútua ou unilateral, acaba sempre por se meter no caminho. Sally irrita-se com algumas das tiradas dele e com a sensação de que ele se está a tentar engatá-la, mesmo sendo namorado de uma amiga dela.


Cinco anos mais tarde, os dois reencontram-se num avião: Sally namora com Joe (Steven Ford), um vizinho de Harry e este está noivo de Helen (Harley Kozak). Durante o voo, os dois conversam sobre a vida desde que se viram pela última vez e sobre o inevitável tópico de relações entre homens e mulheres. Harry procura excepções na sua teoria da impossibilidade de um homem e uma mulher serem apenas amigos mas não consegue.


Passados mais cinco anos, Harry e Sally reencontram-se novamente e desta vez Harry deixa as regras e teorias de lado e propõe que eles sejam amigos. Os dois acabam por ser um fonte de apoio mútuo já que os dois terminaram as suas relações: Sally terminou com Joe porque ela queria ter uma família e ele não e Harry viu o seu casamento acabar quando Helen o trocou por outro. Pelo meio, vão tendo conversas sobre o seu tópico preferido, relações entre homens e mulheres, e os dois vão apreciando cada vez mais a companhia um do outro.
Durante uma saída a quatro, os melhores amigos de Harry e Sally, Jess (Bruno Kirby) e Marie (Carrie Fisher) apaixonam-se e rapidamente ficam noivos. Já Sally e Harry vêm a sua amizade num impasse depois de os dois terem sexo num momento vulnerável quando Harry consola Sally que ficou triste com a notícia do noivado do seu ex Joe, com a tensão a culminar numa grave discussão durante o casamento de Jess e Marie. A amizade entre ambos parece perdida até que na noite de Ano Novo, Harry declara-se a Sally, confirmando que há muito que os dois estavam apaixonados.
Ao longo do filme, vão surgindo depoimentos de vários casais idosos que relatam a forma como se conheceram e se apaixonaram, sendo o último testemunho o dos próprios Harry e Sally que relatam como foi o casamento de ambos, três meses depois de terem reatado.



Com muito conteúdo do filme baseado nas experiências pessoais do realizador Rob Reiner, da argumentista Nora Ephron, do produtor Andy Scheimann e do próprio Billy Crystal, "Um Amor Inevitável" deixou a sua marca no género da comédia romântica graças aos seus diálogos vivos e acutilantes. Por exemplo, ajudou a estabelecer alguns conceitos que agora tornaram-se comuns como "mulher de alta manutenção" e "namoro de transição". Juntamente com "Conta Comigo" e "A Princesa Prometida", ajudou a confirmar Rob Reiner como um realizador de topo e catapultaria Nora Ephron para grande sucesso como argumentista e mais tarde também realizadora. A química entre Billy Crystal e Meg Ryan também foi uma mais-valia, bem secundados pelo resto do elenco, sobretudo Carrie Fisher, mas já lá vamos.



Porque sim, é preciso falar sobre a mais famosa cena do filme, aquela em que Sally simula um orgasmo no meio de um restaurante cheio de gente, em que todos ficam especados a olhar para ela com um atónito. Tudo começa quando Harry afirma que nenhuma uma mulher fingiu orgasmos com ele e Sally demonstra que é bastante fácil para uma mulher fingir isso e que provavelmente já houve quem fingisse com ele. Segue-se a tal simulação que termina com Sally a voltar para a sua refeição com um olhar vitorioso, Harry com ar comprometido de quem perdeu uma discussão e uma mulher no restaurante a dizer para o empregado: "Quero o mesmo que ela!" (Essa mulher era Estelle Reiner, a mãe do realizador. A filha adoptiva deste, Tracy Reiner, também entrou no filme como Emily, uma jovem doceira que surge como namorada de Harry numa cena de um encontro de amigos). O restaurante existe mesmo em Manhattan, de seu nome Katz's Delicatessen, tornou-se obviamente local de romaria e sobre a mesa onde Ryan e Crystal filmaram a cena existe este sinal:




Mas se a dupla protagonista domina o filme, Carrie Fisher não deixa Billy Crystal e Meg Ryan brilharem sozinhos no papel de Marie, a amiga de Sally que anda há dois anos envolvida com um homem casado que apesar dos esforços dela (como por exemplo comprar um grande bouquet de rosas e fingir que foi outro homem que lhe deu) não pretende deixar a esposa mas que acaba por se apaixonar por Jess, o melhor amigo de Harry, quando os dois são apresentados. À medida que o filme avança, Marie e Jess dão a entender que torcem secretamente para que Harry e Sally fiquem juntos também. 



Sem dúvida que Nora Ephron, sabendo do apurado sentido de humor de Carrie Fisher, terá feito questão em providenciar a sua personagem com algumas deixas geniais. E Fisher é exímia e hilariante em cada cena que entra. Por exemplo, nesta primeira cena em que Marie aparece, Sally revela a ela e a Alice (Lisa Jane Persky), outra amiga, que acabou tudo com Joe. A primeira reacção de Marie é exclamar "O Joe está disponível?" e a segunda é sacar do seu ficheiro de contactos para arranjar alguém para Sally, culminando com ela a dobrar um ficha quando lhe dizem que um dos seus contactos está casado (que como já se viu, não é necessariamente um impedimento para Marie).



Por fim destaque para a banda sonora, cheia de vários standards de jazz interpretados por Harry Connick jr.

Trailer:


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