sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Colectâneas de dance music da Vidisco (anos 90)

por Paulo Neto 
em memória de Pedro Borges (1980-2003)

A editora Vidisco, fundada em 1986 e sediada na Pontinha, tornou-se nos anos 90 a maior editora discográfica somando sucessos em várias frentes. Uma delas era na música nacional, quer aproveitando o boom da música "pimba" e promovendo artistas do género como Emanuel (autor do hit que deu nome ao fenómeno), o pequeno Saúl ou o Agrupamento Diapasão, quer em grupo de pop-rock como os Íris, o Império dos Sentados, os Anjos ou os Santamaria. Outra foi promovendo artistas brasileiros radicados em Portugal como a dupla sertaneja Lucas & Matheus e sobretudo, Iran Costa cujo seu "Album Dance" vendeu mais de duzentas mil cópias em 1995, graças ao inescapável "É o Bicho". (Presumo que haja hoje em dia duzentas mil pessoas que preferem esquecer que compraram esse disco).
Mas sem dúvida que onde a Vidisco era a líder incontestada em Portugal era na dance music. Primeiro porque possuíram a label Kaos Records pela qual assinaram projectos que colocaram Portugal no mapa da música de dança, como os Underground Sound of Lisbon (dos lendários DJ Vibe e Rui da Silva) ou os LL Project. Mas também sobretudo pelas colectâneas que reuniam os principais êxitos do eurodance, que eram inevitáveis campeãs de vendas, disparando para o n.º 1 dos tops (o que promoveu a necessidade da criação de uma tabela de vendas só para as compilações, que surgiu em 1995). Numa quase dependência psicotrópica, vários portugueses compravam a mais recente compilação em CD ou cassete e consumiam-nas para os mais diversos fins: para simular raves nas festas de anos, para tocar nos carrinhos de choque, para ouvir no carro com o volume no máximo a caminho da praia ou da discoteca ou, como eu, simplesmente para ouvir  e dançar no quarto com a maior  pujança e (des)elegância. E quando as canções já passavam de prazo de validade, esperava-se ansiosamente pela próxima dose, ou seja, a próxima colectânea. E felizmente havia várias ao longo do ano, sendo estas as seis principais.

Começava-se no início do ano com a "Electricidade", cujo nome vinha do mítico programa da Rádio Cidade (o primeiro volume data de 1994).

"Electricidade" de 1995

Na Primavera, surgia a Dance Mania (primeiro volume editado em 1993)

"Dance Mania 95"

Com o Verão vinha o Dance Power (primeiro volume editado em 1994)

Primeiro volume Dance Power (1994)

A chegada do Outono era comemorada com os "16 Top World Charts" (primeiro volume é de 1991)

16 Top World Charts 1995


Anúncio "16 Top World Charts 1994":


E no auge do sempre proveitoso mercado natalício, dose dupla com o Supermix (que creio que vem desde algures dos anos 80, o primeiro volume que me lembro é o n.º 7, de 1992) e o Top Star (primeiro volume editado em 1990).

Supermix 9 (1994)
Top Star 1994/95


Todas estas colectâneas continham a esmagadora maioria dos vários êxitos eurodance que pululavam nas pistas de dança e nos carrinhos de choque. Entre os nomes mais assíduos e famosos estavam Whigfield, 2 Unlimited, Corona, Outhere Brothers, Twenty 4 Seven, Cappella, Fun Factory, Faithless, Ice MC, Double You, Technotronic e E-Rotic. E para colmatar a ausência de hits originais do género que pertenciam a outras editoras, havia covers mais ou menos fiéis, como por exemplo, Vany, uma voz da Rádio Cidade, a versionar os êxitos dos 20 Fingers como "Lick it" e sobretudo, "Short Dick Man". E por falar em covers, havia também amiúde versões dançáveis dos hits da altura, como "Zombie" dos Cranberries por Venus e "Think twice" de Céline Dion por Rochelle.

Outros dos atractivos das compilações era os megamixes dos principais hits contidos no disco. A título de exemplo, eis o Megamix do Top Star 94/95, da autoria do DJ Nuno Miguel:



A febre das compilações de dance music era tal que várias editoras também tentaram a sua sorte com colectâneas como "Alta Tensão" e "Climax" (da Edison), "Radioactividade" e "Madmix" (da BMG) e "Mega Dance" (da Sony Music), mas nenhuma delas sem roubar o trono das colectâneas da Vidisco. Até a principal editora do género em Espanha, a Blanco Y Negro Music, editou algumas das suas colectâneas no mercado português.

Para quem não tinha dinheiro para estar sempre a adquirir as colectâneas, havia sempre a alternativa de pedir emprestado a um colega (havia sempre um que tinha comprado) para gravar em cassete. Recordo com saudade os tempos em que eu e um colega meu do 9.º ano combinávamos entre nós qual é era a colectânea que cada um comprava para depois emprestar ao outro para gravar. (É a esse meu colega, a quem um acidente de viação roubou-lhe a vida demasiado cedo, que dedico este texto.)

O auge destas sucessões de colectâneas durou entre 1994 e 1997, se bem que a maioria delas tenha continuado pelo resto da década de 90 e princípios do século XXI. Actualmente, a Dance Mania e o Dance Power são os únicos títulos sobreviventes (sem contar com o Supermix recentemente ressuscitado), e os outros títulos foram dando lugar a outros como o "Anual Mix" e o "Orbital Mix", que têm contribuído para manter a Vidisco como a líder nacional das colectâneas de música de dança.

  


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7 comentários:

  1. Bela homenagem do Paulo a um amigo que partiu.

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  2. Nunca fui grande fã de dance music, mas creio aidna haver cá por casa uma dessas cassetes do Electricidade. A maioria do que gravava, era directamente da rádio :) eheh piratas old school

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  3. Parabens pelo post, uma grande homenagem sim senhor! Belos tempos Paulo, por acaso não tem ai nada destes cds? tenho uma rádio online dedicada aos anos 90 e tá dificil de encontrar coletaneas originais desse tempo! Abraço

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  4. Tenho ideia que alguém saiba que a Vidisco tem como ilegais a maior parte dos Dance Power e Dance Mania, visto que não fazem os pagamentos aos artistas que editam nas compilações que mencionei anteriormente... Ninguém tenha medo de ouvir essas colectâneas pois a Vidisco aproveitou-se demasiado dos artistas estrangeiros não lhes pagando sequer... Pensem simplesmente como é que uma editora consegue sobreviver no mercado actual dado o panorama económico-financeiro que não é favorável a pagamentos... Ora senão é favorável a pagamentos a Vidisco não tem que editar artistas sem autorização dos mesmos para ganhar dinheiro à custa de artistas estrangeiros, dando privilégio a artistas nacionais, que ganham à custa do suor de artistas internacionais que a Vidisco teima a não pagar... Passado uns anos, dão a desculpa de a empresa X ou Y ter ido à falência... A Vidisco vai acabar por ser um grande problema por centenas de títulos não estarem legalizados como deve de ser e que foram editados por exemplo em álbuns com Megamix (é ilegal uma editora editar Megamixes ou CD's mixados por DJ's da forma como a Vidisco faz)...

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    1. Nunca fui muito fãs dessas compilações mas é verdade que dominaram o mercado em Portugal e noutros países. A Vidisco licencia artistas que são representados por outras editoras semelhantes. Apesar do nível de vendas de discos ter baixado bastante a Vidisco continua a apostar nas compilações e que até dominam as tabelas de compilações mas hoje é raro atingirem disco de ouro (7500 exemplares) quanto antes eram platina (40.000)

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  5. Só 1 correção: o 16 Top World Charts teve a primeira edição em 1990, era uma cópia fiel da edição original italiana com a troca dos logos da editora original pela da Vidisco.
    De resto, havia uma edição não tão bem sucedida de dance music mas mesmo assim teve 19 volumes, a série "Discoteca", cuja última edição saiu no final de 1994.
    A série " Super Mix" teve a primeira edição em 1987, mas só a partir do volume 5, em 1990 é que foi feito em Portugal e por um português, o DJ Jorginho (da antiga Rádio Cidade). Os primeiros 4 foram encomendados pela Vidisco a espanhóis. O volume 7 foi o primeiro a ser mais conhecido, muito por culpa do hit "Please Don't Go" dos Double You e dos temas techno da altura "James Brown Is Dead" e "De P... Madre". Eu até tenho este em CD e vinil.

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